sábado, 30 de julho de 2011

Pelas barbas do Visconde!


O universo da Literatura Brasileira está em polvorosa. Acontece que, renegando a superficialidade de gaveta do atual discurso “anti-politicamente-correto”, o jornalista carioca Arnaldo Bloch decidiu investigar a fundo a relação entre o famoso escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948) e o ideário racista. Para tanto, descartou a prática da interpretação tendenciosa e decidiu coletar fatos. Deu no que deu. Acabou desentocando cartas enviadas pelo autor do Sítio do Picapau Amarelo aos cientistas Renato Kehl e Arthur Neiva, famosos entusiastas de uma pseudociência denominada eugenia, defensores ferrenhos da pureza racial.
O conteúdo, veiculado pela imprensa carioca, uma revista de circulação nacional, internet e que, em poucos dias, transformou-se em tema principal de centenas de debates virtuais, assusta: “País de mestiços, onde branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (sic), é país perdido para altos destinos.(...) Um dia se fará justiça ao Ku-Klux-Klan; tivéssemos aí uma defesa desta ordem, que mantém o negro em seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destrói a capacidade construtiva” (carta enviada a Arthur Neiva em 10 de Abril de 1928); e isto não é o pior!
Imagine, querido leitor, o tamanho do meu espanto e horror. Sempre defendi Lobato. Suas ideias, inclusive, pareceram-me arejadas, encrenqueiras; sem contar que é responsável pela elaboração/construção daquela que considero uma das personagens femininas mais bem acabadas e representativas da literatura nacional: Emília; diga-se de passagem, uma liderança feminina em tempos de bordado e economia doméstica.
Não perdi tempo. Arranquei Lima Barreto da estante. O escritor carioca, mulato, trocou diversas e pitorescas correspondências com Monteiro entre 1917 e 1922. Lá, não encontrei nenhuma ofensa, mas uma tremenda má vontade nas cartas finais. Descobri que Lima sapecou uma crítica demolidora à publicação “O problema vital”, de Monteiro, prefaciada pelo senhor “eugênico” Kehl. Estariam as palavras (de Lobato) acima direcionadas? Será o escritor carioca, o "mulatinho (que anda) fazendo jogo do galego"? Em tempo: Lima Barreto não conhecia este outro Monteiro, do contrário o teria espinafrado com seus deliciosos artigos avessos a mitificação de “cabeças ocas”. Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Pelas barbas do Visconde!. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 12 de Junho de 2011. Caderno Variedades, p. 03.

4 comentários:

  1. Estou deveras surpreso, imaginar Monteiro Lobato adepto da eugenia, para um homem imaginativo e empreendedor de suas intuições, face a obra, como o petróleo brasileiro que ele tanto crera, mas acho que o ouro negro lhe subiu a cabeça. hoje o petróleo se confirma assim como o mulato Machado é negro e ouro.

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    2. Acho que Lobato sempre esteve bem a frente de seu tempo. Não obstante, ele também se guiava pelos conhecimentos, pelas informações "científicas" da época. Quando escreveu sobre o Jeca Tatu, ele desceu o pau no pobre caipira. Mais tarde reconheceu que o problema não era o homem, o Jeca, e, sim, o zoológico de vermes que o Jeca tinha dentro de si. E pediu desculpas! Isso se pode ver nas edições posteriores de "Urupês". Se Lobato tivesse vivido mais tempo nada o impediria de reconhecer seus equívocos.

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    3. Coveite, Gilberto Freyre publicou Casa Grande e Senzala em 1933 e era um entusiasta da "miscigenação" (com olhar de branco colonizador, mas jé é alguma coisa). Monteiro Lobato morreu em 1948 e nunca mudou de ideia em relação à suas ideias racistas. Ele não é uma vítima do tempo; do pensamento reinante. Ele tinha escolha e não pediu desculpas. Também não se engane: que biotipo de criança lia Monteiro Lobato no início do século XX? Ou melhor: qual o biotipo de criança alfabetizada naquela altura? O público alvo de Lobato era bem definido: ele escrevia para crianças brancas. Eu não o isento de culpa.

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