domingo, 22 de julho de 2012

Da Partícula II

As duas definições capazes de explicar a origem do apelido da partícula recém-descoberta, o "Bosón de Higgs", não se excluem e, de fato, a fusão das duas nos oferece a explicação verdadeira: Lederman utilizou a analogia ao episódio bíblico da torre de Babel ("Ao mesmo tempo, há muitos milênios, muito antes da escrita destas palavras bíblicas, a natureza falava apenas um idioma") e, por isso, pensara num título/trocadilho "The God damn Particle" (Partícula Deus/Maldita), mas, sob orientação de seu editor, substituira-o por "The God Particle". 
A explicação, no entanto, não justifica a bizarra versão do apelido, difundida com vigor pelos principais meios de comunicação: "A Partícula de Deus". Carregada de simbologia, a expressão ainda fora acoplada a "pacotões culturais". Um deles gerou estes artigos.
Virtualmente, um sujeito me disse que "agora que os cientistas localizaram esta partícula, serão capazes de construir uma bomba poderosíssima". Perguntei-lhe de onde lhe tinha vindo esta ideia e o mesmo me respondeu: "Por acaso você não leu Anjos e Demônios?". O indivíduo abandonou o "chat" sem me dar tempo de esclarecer a confusão. 
Acontece que, no famigerado livro "Anjos e Demônios", lançado no Brasil em 2003, o medíocre Brown, para justificar sua fraca trama, sequestra erroneamente o conceito de distinto campo da física: a "Antimatéria". Na obra, cientistas conseguem armazenar antipartículas e um vilão se apropria das mesmas a fim de utilizá-las como um poderoso explosivo. 
Em verdade, os cientistas já produziram algumas antipartículas, comprovano teorias científicas anteriores, e também é verdade que a mistura de matéria com antimatéria levaria ao aniquilamento de ambas, mas ainda não conseguimos armazená-las por mais de um décimo de segundo. Também, a expressão/versão "Partícula de Deus" aparece apenas uma vez na trama (quando Langdon observa a estante de um cientista e localiza nela o livro de Lederman). Na adaptação cinematográfica, a confusão ainda é maior. Ao assisti-la, tem-se por certo que a partícula aprisionada é a "partícula de Deus". Parece-me, portanto, que tanto os Deuses quanto as Partículas, dadas suas devidas concretudes, estarão sempre à mercê de interpretações equivocadas, tendenciosas e paranoicas, providas pela mesma contraditória força, quiçá a mais poderosa de todas, a mais bela e a mais indomável: que se apelida a "Mente (cérebro) Humana".

MIRANDA, Rafael Puertas de. Da Partícula II. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 15 de Julho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

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