quinta-feira, 21 de maio de 2026

Crônica: A Casa da Dor

Fui ao médico, um ex-aluno querido e meio ressentido por jamais ter recebido um dez meu, culpa que hoje reconheço como exclusivamente dele. Analisou meus exames com a autoridade de quem trocou a sala de aula pelo consultório e sentenciou, professoralmente:

— Bom, o senhor tem quarenta e cinco anos e triglicérides e colesterol altos. Vai ter de ir à academia. Do contrário, é melhor agendar um horário com Machado de Assis!

Como, por ora, ainda não desejo estudar a “geologia dos campos santos”, matriculei-me numa academia perto de casa. Eu, antigo adepto do lema “Academia? Prefiro atrofiar!”, ingressei nesse novo universo com a dignidade possível de quem já puxou muitos livros ao longo da vida.

A academia revelou-se rapidamente a "Casa da Dor" e meu filho adolescente, convicto praticante do fitness, tornou-se meu carrasco do bem, desses que sorriem enquanto ajustam a carga para além da misericórdia humana. 

A maromba, esse universo particular, passou a ocupar alguns dias da minha semana e, como todo ambiente novo, começou a infiltrar-se também na linguagem. Palavras inéditas passaram a anabolizar meu vocabulário. Entre todas, “supino” me pareceu a mais bonita. Busquei-lhe a raiz etimológica e descobri, com satisfação erudita, que “supino” é estar com as costas voltadas para o chão. Uma palavra que cai bem a quem já vive meio deitado pela fadiga do sedentarismo literário.

Além das palavras, surgiram as pessoas. Algumas, mesmo desconhecidas, ascenderam ao seleto grupo do “conhecer de vista e de chapéu”. Entre elas, há um senhor com a minha idade e, infinitamente, mais músculos e cabelos do que eu. Chamou-me a atenção de imediato. Ele é adepto do esforço sonoro: geme, suspira, verbaliza cada repetição como se estivesse parindo o próprio halter. Eu, por minha vez, já me canso no primeiro nível de qualquer aparelho. Ainda assim, reconheci entre nós uma certa irmandade: somos os únicos que não utilizam fones de ouvido naquela masmorra.

Pensei, certa vez, em lhe desejar boa tarde. Um gesto mínimo, civilizatório. Mas desisti. Esse tipo de aproximação pode chocar demais as outras sombras da "Casa da Dor", seres concentrados, encapsulados em seus fones, que transpiram sem se ver, que se arrastam sem trocar palavras.

Na academia de ginástica, esse panteão do exterior, falar é quase um ato subversivo. Ali, o que passa por dentro não interessa. Só o músculo visível tem direito à existência. O resto deve suar em silêncio.

Rafael [P]uertas de Miranda

Mogi das Cruzes, 28 de Fevereiro de 2026.