terça-feira, 27 de outubro de 2026

A Causa Nada Secreta, ou "o defunto que confessa assassinato".


   Há pouco tempo, fui entrevistado por uma estudante de Jornalismo, interessada em conhecer minhas impressões acerca dos hábitos de leitura da juventude. Queria saber, entre outras coisas, se as redes sociais desempenhavam um papel importante na formação de novos leitores. Respondi que sim, mas acrescentei um porém. E, como sabem os leitores de Machado de Assis, há poréns capazes de arruinar uma bela afirmação.
    As redes sociais, argumentei, certamente contribuem para divulgar o objeto livro, convertido, não raro, em uma espécie de capital simbólico. Exibe-se a capa, fotografa-se a estante, celebra-se a aquisição, recomenda-se a obra, anuncia-se a leitura. O livro circula, ganha admiradores, torna-se desejável. Até aí, nada a questionar. O problema começa quando confundimos a circulação do objeto com a experiência da leitura.
    Ler, afinal, exige tempo. E tempo, sobretudo aquele que não se deixa converter imediatamente em engajamento, é artigo pouco estimado pelos safados algoritmos. A leitura literária, com suas hesitações, ambiguidades, digressões e silêncios, não parece especialmente compatível com a velocidade de um dedo que desliza pela tela.
    Não afirmo, evidentemente, que as redes sociais sejam incapazes de formar leitores. Seria trocar uma simplificação por outra. O que me inquieta é a possibilidade de estarmos formando, com extraordinária eficiência, consumidores de livros que nem sempre se convertem em leitores de Literatura.
    Para ilustrar meu argumento, apresentei à estudante um exemplar de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), do escritor brasileiro Machado de Assis. Escolhi um episódio particularmente sinistro do romance, desses que costumam escapar às sinopses apressadas, às resenhas entusiasmadas e às adaptações empenhadas em tornar simpático o que nasceu para causar desconforto.
   Expliquei-lhe que abundam páginas, perfis e sítios eletrônicos dedicados a divulgar a referida obra. Poucos, entretanto, parecem dispostos a demorar-se no que efetivamente está escrito. Há uma multidão convidando-nos a conhecer Brás Cubas (até gringos!); nem todos nos convidam a desconfiar dele.
    E foi então que lhe revelei um hábito meu, talvez menos recomendável do que a leitura silenciosa, mas infinitamente mais divertido para quem o pratica. Tenho um hobby estranho: adoro ler Machado de Assis em voz alta para as pessoas, ensinando-as a perceber as sutilezas, armadilhas e malícias deste exímio e deliciosamente insidioso escritor, o Bruxo do Cosme Velho.
    Às vezes, torcem o nariz. Outras, tapam os ouvidos. Há ainda quem finja dormir enquanto me empolgo com a leitura. Há também aqueles que, irmanados pelo amor à Literatura, deixam-se embalar, e eu seria injusto se os deixasse de fora do batel. Não raro, essa tortura é necessária, e sigo firme na minha causa nada secreta. 
    Explico.
  Tenho observado, estarrecido, uma tendência curiosa nas redes: apresentar Brás Cubas, narrador-protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, como uma espécie de herói. Herói do livro que dialoga com a obra, da história em quadrinhos que a adapta, do game nela inspirado, do anime que lhe expande o universo e assim por diante.
    Nada tenho contra as adaptações. O próprio Machado, se vivo estivesse, talvez se divertisse com algumas delas. Com outras, suponho, reservaria um daqueles sorrisos que não sabemos se são de aprovação ou escárnio, teimando a Gioconda.
    Ocorre que Brás Cubas, esse figurão da elite carioca do século XIX, não é um herói. Tampouco uma espécie de alter ego do autor, ou seu sósia. Brás Cubas é perverso. E mais: é um ASSASSINO.

“— Assassino? Lá vem o Professor Puertas com suas teses miraculosas…” (Dizem discentes, quando a escutam pela primeira vez.)

    Não, não se trata de uma tese miraculosa. Trata-se de levar a sério o que está escrito. E, neste caso, o morto fala mais do que deveria. Vamos ao texto.
    No Capítulo XI, significativamente intitulado “O menino é o pai do homem”, o narrador confessa, sem qualquer constrangimento:

“Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do doce de coco que estava fazendo; e, não contente com o maleficio, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis annos.”

    O leitor não leu errado: “um dia quebrei a cabeça de uma escrava”.
    Repare-se na extraordinária naturalidade da confissão. Um menino branco, filho da elite escravocrata, quebra a cabeça de uma mulher negra escravizada porque esta lhe negara uma colher de doce de coco. Não satisfeito, lança cinzas ao tacho e atribui à própria vítima a responsabilidade pelo estrago.
  Detenhamo-nos, por um instante, no verbo: “quebrou”. Não ameaçou, não empurrou, não insultou. Quebrou-lhe a cabeça.
    Machado de Assis, escritor realista, emprega uma construção de clareza brutal, quase obscena em sua simplicidade. Não há floreios, imagens rebuscadas ou qualquer sentimentalismo capaz de atenuar a violência. E, no entanto, parece que justamente por ser tão direta ninguém se detém nela. Lemos a frase, atravessamos o episódio e seguimos adiante, como se quebrar a cabeça de uma mulher escravizada fosse apenas mais uma estultice do pequeno Brás.
    Minha leitura é literal, como manda a cartilha do Realismo, e dela retiro uma consequência terrível: a mulher teria sido morta pelo menino. O narrador não registra expressamente esse desfecho, é verdade, mas tampouco oferece explicação que torne menos brutal o gesto confessado. A expressão permanece ali, diante de nossos olhos, com toda a violência que comporta.
    Talvez seja esse o maior triunfo da perversidade narrativa: fazer com que o leitor reproduza, inadvertidamente, a indiferença do narrador (um jogo de espelhos).
    E há um detalhe ainda mais perturbador. A mulher escravizada exercera, naquele instante, alguma autoridade sobre o menino. Fora capaz de lhe negar o doce, de impor um limite ao pequeno senhor. Autoridade mínima, é verdade, mas suficiente para despertar a violência de quem, desde o berço, aprendera a confundir seus caprichos com direitos.
   Depois da agressão, vem a segunda violência: a fabricação da culpa. Brás Cubas não apenas destrói o que a mulher preparava, mas inventa uma versão dos acontecimentos que a transforma em responsável pelo próprio prejuízo. A vítima converte-se em culpada, e o agressor, em testemunha privilegiada de sua própria inocência.
    E quem haveria de contestá-lo?
  Na leitura que proponho, a mulher escravizada estava morta. Aquela que, momentos antes, possuía autoridade suficiente para negar uma colher de doce ao menino já não poderia defender-se da acusação que ele inventara. Sua palavra fora definitivamente silenciada. Brás Cubas, depois de lhe quebrar a cabeça, ainda se encarregava de construir a versão dos fatos que chegaria aos ouvidos da mãe.
    Eis a perversidade que me interessa destacar: a única pessoa capaz de desmentir o menino seria justamente aquela que, tendo sido morta por ele, já não poderia falar. A autoridade que a mulher exercera sobre o pequeno senhor desaparece diante de uma violência absoluta. Resta a palavra do agressor, livre para atribuir à vítima a culpa pelo doce estragado.
    Não há remorso. Não há indignação. Há uma lembrança pitoresca da infância, convenientemente acomodada entre as travessuras de um menino voluntarioso. E Brás Cubas ainda se permite tranquilizar o leitor, alguns parágrafos adiante:

“Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros.”

    Notável defesa! O réu apresenta a acusação, preside o julgamento e, antes que o leitor formule sua sentença, trata de absolver-se. Machado de Assis, entretanto, não absolve; denuncia.
    E o faz sem precisar interromper a narrativa para proferir uma sentença moral. Basta conceder a palavra a um representante daquela perversa elite escravocrata de fins do século XIX e permitir que ele exponha, com a desenvoltura dos que jamais precisaram prestar contas, a monstruosidade de sua própria formação.
    O horror não está apenas no gesto. Está na maneira de contá-lo. E, talvez, na facilidade com que continuamos a lê-lo sem perceber sua dimensão.
      E não se trata de episódio isolado.
   No capítulo CXXIII, Brás Cubas descreve o cunhado Cotrim, conhecido pela brutalidade com que tratava pessoas escravizadas:

“O unico facto allegado neste particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes.”

    Observem a engenhosidade do argumento.
   Cotrim mandava açoitar pessoas escravizadas até que escorressem sangue. Mas havia uma explicação: o comércio de seres humanos o habituara a um tratamento mais severo. A culpa, portanto, não seria propriamente dele, mas das circunstâncias sociais.
   A perversidade é diluída na sociologia. A violência, racionalizada e o crime, naturalizado.
   Eis o prodígio da retórica de Brás Cubas: transformar a crueldade em circunstância atenuante. O homem que negociava seres humanos e os submetia a castigos sanguinários aparece quase como vítima dos hábitos adquiridos no exercício de sua profissão.
     Há ainda Prudêncio, o menino escravizado que Brás Cubas utilizava como cavalo, montando-lhe às costas e castigando-o com um chicote (esse trecho ilustrou, recentemente, uma questão do Vestibular da UNICAMP). Anos depois, já alforriado, Prudêncio reproduz a violência sofrida, açoitando outro homem escravizado.
       A cena é desconcertante. O oprimido, uma vez investido de algum poder, passa a reproduzir os mecanismos de opressão que o constituíram. A liberdade jurídica não desfaz, por si só, as marcas de uma sociedade organizada sobre a humilhação.
     E Brás Cubas? Observa tudo com a distância confortável de quem jamais precisou experimentar o outro lado do chicote. Cismo, inclusive, que há nesse universo de violência senhorial ecos de uma história real, contemporânea à publicação do romance e quase esquecida. Refiro-me à morte do menino escravizado Inocêncio, em um caso de extrema crueldade que envolveu a poderosa Baronesa do Grajaú, no Maranhão, em 1876. A baronesa escapou à punição.
        Não pretendo afirmar que Machado tenha necessariamente se inspirado nesse episódio. A aproximação, entretanto, é perturbadora. A ficção machadiana e a realidade brasileira parecem compartilhar uma mesma gramática da violência: a impunidade dos poderosos e a desumanização daqueles sobre os quais exercem seu domínio.
       Voltemos, pois, à estudante de Jornalismo e à pergunta que deu origem a esta digressão.
        As redes sociais podem divulgar Memórias Póstumas de Brás Cubas a milhões de pessoas. Podem transformar sua capa em objeto de desejo, seu protagonista em personagem pop e seu autor em celebridade internacional. Nada disso, por si só, constitui um problema.
    O problema é quando a divulgação substitui a leitura. Quando a familiaridade com o nome de uma obra passa a valer como conhecimento de seu conteúdo. Quando a complexidade de um personagem é sacrificada para que ele caiba numa postagem, numa tendência ou numa narrativa facilmente consumível.
    A Literatura, ao contrário dos algoritmos, não foi feita para confirmar continuamente nossas expectativas. Entre seus maiores méritos está justamente o de contrariá-las.
       Diante de Brás Cubas, portanto, o gesto crítico não consiste em admirá-lo, muito menos em transformá-lo num herói pop “fofinho”, uma espécie de Sherlock Holmes brasileiro, mas em reconhecer sua perversidade, sua adesão confortável às injustiças sociais, sua frieza diante da dor alheia e seu cinismo descarado. Podemos admirar a construção literária de Brás Cubas sem admirar Brás Cubas. Aliás, suspeito que a grandeza de Machado resida precisamente nessa distinção.
    E há, por último, uma ironia que não me escapa.
    Capitu, a pobre filha dos Pádua, continua sendo julgada, em salas de aula Brasil afora, por muito menos: uma mera traição. Brás Cubas, entretanto, que nos oferece de própria boca um inventário de violências, crueldades e indignidades, corre o risco de ser celebrado como herói. Curioso país este, em que uma mulher precisa responder eternamente por seus amores, enquanto um vampiro apático pode confessar suas brutalidades e ainda conquistar a simpatia dos leitores.
     Talvez o problema não esteja apenas na maneira como lemos Machado de Assis. Talvez esteja, também, na maneira como continuamos a ler o Brasil.
    Quanto à estudante de Jornalismo, não sei se a convenci. Espero, ao menos, não lhe ter provocado aversão à Literatura.
    E, quanto aos meus ouvintes e leitores habituais, podem continuar torcendo o nariz, tapando os ouvidos ou fingindo dormir.
      Persistirei na tortura. Afinal, há ainda livros que todos recomendam, personagens que todos conhecem e crimes que quase ninguém percebe, riscados em páginas perdidas por aí. A minha causa, como se vê, não tem nada de secreta.

Prof. Esp. Rafael Puertas de Miranda
Mogi das Cruzes (SP), 27 de Outubro de 2026.
prof_rafaelpuertas@yahoo.com.br

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Crônica: A Casa da Dor

Fui ao médico, um ex-aluno querido e meio ressentido por jamais ter recebido um dez meu, culpa que hoje reconheço como exclusivamente dele. Analisou meus exames com a autoridade de quem trocou a sala de aula pelo consultório e sentenciou, professoralmente:

— Bom, o senhor tem quarenta e cinco anos e triglicérides e colesterol altos. Vai ter de ir à academia. Do contrário, é melhor agendar um horário com Machado de Assis!

Como, por ora, ainda não desejo estudar a “geologia dos campos santos”, matriculei-me numa academia perto de casa. Eu, antigo adepto do lema “Academia? Prefiro atrofiar!”, ingressei nesse novo universo com a dignidade possível de quem já puxou muitos livros ao longo da vida.

A academia revelou-se rapidamente a "Casa da Dor" e meu filho adolescente, convicto praticante do fitness, tornou-se meu carrasco do bem, desses que sorriem enquanto ajustam a carga para além da misericórdia humana. 

A maromba, esse universo particular, passou a ocupar alguns dias da minha semana e, como todo ambiente novo, começou a infiltrar-se também na linguagem. Palavras inéditas passaram a anabolizar meu vocabulário. Entre todas, “supino” me pareceu a mais bonita. Busquei-lhe a raiz etimológica e descobri, com satisfação erudita, que “supino” é estar com as costas voltadas para o chão. Uma palavra que cai bem a quem já vive meio deitado pela fadiga do sedentarismo literário.

Além das palavras, surgiram as pessoas. Algumas, mesmo desconhecidas, ascenderam ao seleto grupo do “conhecer de vista e de chapéu”. Entre elas, há um senhor com a minha idade e, infinitamente, mais músculos e cabelos do que eu. Chamou-me a atenção de imediato. Ele é adepto do esforço sonoro: geme, suspira, verbaliza cada repetição como se estivesse parindo o próprio halter. Eu, por minha vez, já me canso no primeiro nível de qualquer aparelho. Ainda assim, reconheci entre nós uma certa irmandade: somos os únicos que não utilizam fones de ouvido naquela masmorra.

Pensei, certa vez, em lhe desejar boa tarde. Um gesto mínimo, civilizatório. Mas desisti. Esse tipo de aproximação pode chocar demais as outras sombras da "Casa da Dor", seres concentrados, encapsulados em seus fones, que transpiram sem se ver, que se arrastam sem trocar palavras.

Na academia de ginástica, esse panteão do exterior, falar é quase um ato subversivo. Ali, o que passa por dentro não interessa. Só o músculo visível tem direito à existência. O resto deve suar em silêncio.

Rafael [P]uertas de Miranda

Mogi das Cruzes, 28 de Fevereiro de 2026.


terça-feira, 7 de maio de 2024

Da Importância dos Clássicos

    

    Numa tarde ensolarada, no ano de 1669, o Padre Antônio Vieira subia ao púlpito do exemplar Colégio de Santo Antão, em Lisboa, para proferir um Sermão em homenagem à Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus. Não há nenhum registro histórico desse sol enxerido, mas, quem leu até aqui, sabe que um texto é passível dessas artimanhas e, vindo de quem vem, não se esperaria outra coisa. O padre, no entanto, estava lá e o Sermão, também. 
    Vieira, que passou grande parte de sua vida em livros didáticos de Literatura Brasileira, fora confinado na casa dos jesuítas pelos homens do Santo Ofício, que não se conformavam com o teor de seus textos. Na oportunidade mencionada, havia sido liberado para pregar e não fugiu da tarefa. Imagino-o debruçado em sua mesa, escrevendo e reescrevendo o sermão, pois essa é a sina de quem luta com as palavras: tecer o sudário do ancião de Ítaca e destecê-lo, porque escrever envolve também o contrário. Desenredo.
    Erudito, o mestre da arte sermonária utilizou como referência para seu texto a autobiografia de Loyola, onde o gentil-homem de Azpeitia relata sua santificação por intermédio da leitura silenciosa e dedicada de uma obra que retratava a vida de santos do passado, tendo se interessado, sobretudo, pela vida de São Domingos e São Francisco. Proferiu Vieira, naquela ocasião, banhado pelo raio solar hipotético:
"Jazia Santo Inácio (não digo bem), jazia Dom Inácio de Loyola, malferido de uma bala francesa no cerco de Pamplona, e aborrecido, como valente que era, de ter perdido um castelo (fortaleza), pensava outros maiores castelos (fortalezas), pelas medidas dos seus espíritos. Já lhe parecia pouca defesa Navarra (cuja capital era Pamplona), pouca medida os Pirineus (cordilheira próxima, separando a Espanha, e sua província Navarra, da França), pouca conquista a França. Considerava-se capitão, e espanhol, e rendido (derrotado); e a dor lhe trazia a memória como Roma em Cipião, e Cartago em Aníbal foram despojos de Espanha: os Cids, os Pelaios, os Viriatos, os Lusos, os Geriões, os Hércules (antigos heróis lendários da Península Ibérica, Portugal e Espanha), eram os homens com cujas semelhanças heroicas o animava, e inquietava a fama, mais ferido da reputação da pátria, que das suas próprias feridas. 
Cansado de lutar com pensamentos tão vastos, pediu um livro de cavalarias para passar o tempo; mas oh Providência Divina! Um livro que só se achou era das vidas dos Santos. Bem pagou depois Santo Inácio em livros o que deveu a este. Mas vede quanto importa a lição de bons livros. Se o lera cavalarias, sairia Inácio um cavaleiro da ardente espada; leu vida de santos, saiu um Santo de ardente tocha (Lc 12,35: "Estejam as candeias acesas em vossas mãos"). Toma Inácio o livro nas mãos: lê-o a princípio com dissabor; pouco depois sem fastio; ultimamente com gosto; e dali por diante com fome, com ânsia, com cuidado, com desengano, com devoção, com lágrimas."
    Desse breve retalho vieirense, então, parte a reflexão que ora vos ofereço, lente incansável. Pode-se dizer que, nesta passagem arguta, quase um estalo, o Padre Vieira mira no Santo e acerta também na Literatura, ou melhor, na importância da leitura atenta do que se convencionou chamar de "Clássico". 
    Nestes tempos de olhos nervosos em ecrãs, abundam opinadores de redes, que questionam a utilidade dos Clássicos, malhando-os a sua maneira, com os mais diversos tons de cancelamento. "Afinal, de que serve toda essa leitura embolorada?     Qual a utilidade de um Clássico?", dedam incansáveis para, em seguida, recolherem-se aos volumes de sinistras e vazias bibliotecas alquímicas.
    Desde muito tempo, acredito que eles, os Clássicos, não tenham, mesmo, utilidade alguma. Ou melhor, num mundo onde o que tem valor é aquilo que agrega a maior quantidade de utilidades possíveis e imagináveis, os Clássicos persistem na sua condição inata de "inutensílios indispensáveis", como diria o poeta carateca bigodudo.
    Um livro de Machado de Assis, um verdadeiro matagal de palavras selvagens, em si, não tem utilidade nenhuma. Mas a lição que se tira, quando se lê uma obra como o romance "Quincas Borba" (1891), tem muito valor. E esse é o aspecto mais relevante de toda boa Literatura: o que se tira da leitura atenta dos Clássicos é uma das coisas mais valiosas que se pode ter nessa nossa jornada irrequieta.
    Aquele que vence o dissabor inicial e se lança nesse mergulho profundo, passa a reparar melhor nas coisas desse mundo. Ler um Clássico é contemplar a si mesmo e a toda humanidade; é o exercício mais profundo de humildade e paciência. Longe deles, há vazio e desgosto. Perto, entendimento e sensatez. Aqueles que descobrem esse tesouro cedo estão livres de muita tribulação. 
    Por esse mesmo motivo, a despeito da sanha insistente dos mercadores da ignorância e dos que nunca experimentaram essa jornada por teimosia, os Clássicos continuam a brilhar, iluminando os dias daqueles que se deixam guiar pelas letras, com perseverança. Logo, essa é a minha entusiasmada e simplória opinião a respeito dos Clássicos. Se concordas, sorri. Se discordas, aceito a careta. A bem da verdade, é a mesma coisa. A Constelação do Cruzeiro do Sul está assaz alta para não discernir os risos e as caretas dos homens.  

Professor Rafael Puertas de Miranda
Mogi das Cruzes (SP)

Texto publicado na Revista do Colégio Santa Mônica 2023/2024:

terça-feira, 23 de abril de 2024

Tese PUERTAS, sobre o enredo do romance Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis.

 
Advertência:
Esta "Tese", organizada pelo professor mogiano Rafael Puertas de Miranda, pode ser utilizada em julgamentos escolares da obra "Dom Casmurro" (1899), de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) pelo grupo de acusação, além orientar a leitura de curiosos e estudiosos, enfastiados com a interpretação antiga e distraída de Helen Caldwell e com os argumentos tontos do John Gledson, que não entende de biologia humana. Até agora, esta parafernalha divertida mostrou-se muito útil. Boa leitura!

Dedicatória:
Tese dedicada à Otto Lara Resende (in memoriam) e à Dalton Trevisan.

1º Argumento - Em sua vasta galeria literária, Machado de Assis tratou do tema da traição e da esterilidade sob vários prismas.
2º Argumento - Quando terminou de publicar o romance Quincas Borba (1891), seus leitores exigiam avidamente um romance solo da personagem Sofia. Queriam muito que ela traísse seu marido paspalhão e interesseiro. Era um casal estéril, os "Palha". O romance Dom Casmurro (1899) foi a forma encontrada pelo escritor para satisfazer o seu público leitor. Ele dependia das vendas de seus livros.
3º Argumento - O romance Dom Casmurro foi recepcionado pela crítica e divulgado em propagandas como um "romance de traição". Ninguém dizia o contrário. Também, Machado de Assis nunca questionou publicamente essa classificação. A obra O Primo Basílio (1878), de Eça de Queiroz, havia escandalizado a sensibilidade de Machado com suas baixezas: haveria a possibilidade da escrita de um romance de traição, que não fosse tão decrépito?
4º Argumento - Bentinho era rico e tonto. Capitu uma alpinista social. Escobar um interesseiro ("...olhe, dê-me o número das casas de sua mãe e os alugueis de cada uma, e se eu não disser a soma total em dois, em um minuto, enforque-me!" - Capítulo XCIV- Sei!).
5º Argumento - Capitu e Bentinho estão casados há DOIS ANOS e não têm filhos. Um casal saudável demora entre dois meses e um ano para gerar uma criança (Leia mais sobre isso aqui!). Essa chave aparece no capítulo As Pirâmides - CIV (o capítulo onde o "triângulo" se consuma). É um Argumento Biológico incontornável.

"Tudo corria bem. Ao fim de dous anos de casado, salvo o desgosto grande de não ter um filho, tudo corria bem." - Dom Casmurro (1899).

- nada corria bem!

6º Argumento - A genética é irrevogável: a família Santiago tem problemas com a reprodução humana, haja vista que o primeiro filho de Dona Glória, mãe de Bento, nasceu morto. (Ver promesssa de D. Glória, se o segundo filho vingar - "Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho, minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse, prometendo, se fosse varão, metê-lo na Igreja." - Capítulo XI).
7º Argumento - Capitu precisa dar um filho a Bentinho. A pressão aumenta. Bentinho vive resmungando.
8º Argumento - Magicamente, ela aparece grávida. Nasce Ezequiel.
9º Argumento - Bentinho descobre Capitu tentando pagar Escobar, às escondidas (é o pagamento da inseminação: "Dez Libras"). Capitu dissimula, dizendo que são investimentos. Escobar, o "corretor", quase desmaia, quando Bento menciona o assunto.
10º Argumento - Num passeio, Ezequiel Escobar (sim, você leu direito: "Escobar" é um sobrenome. O filho de Bentinho recebeu na pia batismal o nome do amigo: "Ezequiel") pergunta para Bentinho se não seria positivo se a filha dele com Sancha e o filho do amigo se casassem, no futuro. Sonda a reação do amigo. Bentinho ainda não desconfia e sela o "pacto" com um aperto de mão.
11º Argumento - Ezequiel cresce e é a cara de Ezequiel Escobar.
12º Argumento - Na despedida de um encontro de casais, Sancha aperta a mão de Bentinho para contar alguma coisa, mas desiste. O tonto narrador acha que ela teria sentido alguma coisa por ele.
13º Argumento - Dona Glória, que sempre gostou de crianças, não dá muita atenção ao pequeno Ezequiel. Ela já entendeu tudo: "DOIS ANOS"! Bentinho percebe:
"Palavra puxa palavra, falei outras dúvidas. Eu era então um poço delas; coaxavam dentro de mim, como verdadeiras rãs, a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu!
— Já disse a você o que é; coisas de sogra. Mamãezinha tem ciúmes de você; logo que eles passem e as saudades aumentem, ela torna a ser o que era. Em lhe faltando o neto...
— Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel. Quando ele vai comigo, mamãe não lhe faz as mesmas graças."
(Capítulo CXV)
José Dias, o agregado de Dona Glória, chama o pequeno de "O filho do Homem!". Rá!
14º Argumento - Escobar morre, ou tira a própria vida, porque Capitu não queria nada dele, exceto um filho. Ela chora em seu enterro. Começa a desconfiança de Bentinho. Capitu e Ezequiel viram alvo.
15º Argumento - Bentinho decide enviar os dois para Europa e Capitu não se opõe. Melhor que o filho esteja bem longe: e se ele tiver alguma coisa com a filha da Sancha, que é sua irmã? Exílio provocado pelo terror da revelação escandalosa de um provável incesto: a obra Casa Velha (1866), de autoria do Bruxo do Cosme Velho, ajuda a entender o procedimento.
16º Argumento - Ezequiel retorna depois da morte de Capitu para reencontrar Bentinho. É o próprio Escobar, de tão parecido. Diz que a mãe sempre dizia que Bentinho era o "mais puro do mundo". Faz sentido, pois o mesmo não pode gerar um filho.
17º Argumento - Bentinho, ao ler a frase do epitáfio do filho, chega a conclusão de que nunca esteve no momento de sua concepção. Não tenho dúvidas disso.
18º Argumento - Machado de Assis entendia muito bem de esterilidade: não teve filhos, não transmitiu "a nenhuma criatura o legado de nossa miséria". Pelo menos, não dentro de seu casamento; mas essa é outra história.

FIM

18 de Abril de 2024.

Prof. Rafael Puertas de Miranda
(Mogi das Cruzes - SP).
prof_rafaelpuertas@yahoo.com.br

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Atualizado em 08/06/2024.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Conto "A Aranha", de Rafael Puertas de Miranda.

A Aranha

    Eu não acredito em assombração ou em forças sobrenaturais, mas ainda não me recuperei completamente daquele acontecimento atordoante.
   Era um feriado prolongado e as atividades na Universidade estavam suspensas. Meu colega de quarto, Rogério, convidou-me para passar estes dias mortos na casa de sua Tia Alberta, que vivia em Ubatuba.
    A viagem foi agradável e sem imprevistos. Chegamos à residência de Alberta no final da tarde. Era uma casa assobradada, espaçosa e arejada. As enormes paredes da sala eram adornadas com máscaras tribais, talvez de origem havaiana, que combinavam com a atmosfera do lugar.
   Uma enfermeira cuidava da parenta de Rogério que, por conta de algum acontecimento traumatizante desconhecido da família, passava os dias em silêncio, sentada numa cadeira de balanço, penteando seus longos cabelos negros como a noite. Chegaram a cogitar um grave quadro depressivo.
    Senti certa tristeza, pois esperava uma recepção mais calorosa. A senhora idosa, com seus olhos estáticos, enchia-me de aflição. Sentada no sofá, acompanhava seus movimentos metódicos. Às vezes, esperava que ela se mexesse e se levantasse, rompendo subitamente com aquele estado de transe que teimava abismo.
    — Mas esse cachorro não para de latir nunca? – disse Rogério, incomodado com o cão do vizinho, enquanto levava nossas malas para os quartos, no andar de cima.
    O animal, desde a nossa chegada, manifestava uma irritação anormal.
    — Acho que esse cachorro é louco! Mudou há pouco para cá. Átila é o nome dele. Passa o dia inteiro latindo. – explicou a enfermeira, já acostumada com os desvarios do cão.
    Lembro-me bem de que, quando me deitei para dormir, na cama do quarto de hóspedes, ainda ouvia os latidos do nosso vizinho inconveniente. Levou tempo para que eu pegasse no sono.
    De madrugada, aconteceu o incidente. Meio enjoada, despertei com uma sede terrível. Percebi, antes de sair do quarto em busca de um copo com água, que havia algo de diferente.
    Demorei para me dar conta de que o cão amalucado estava em silêncio profundo. Decerto, esgotou-se e agora, inerte como uma pedra, dormia em algum canto do jardim; pensei comigo.
    Desci as escadas, preocupada em não fazer barulho. Não queria acordar ninguém. Já estava saltando o último degrau, quando notei, de soslaio, um movimento estranho, num dos cantos da sala.
    Virei-me rapidamente e vi uma cena inexplicavelmente bizarra. Alberta estava de pé próxima à parede e seus cabelos, como se fossem dotados de vontade própria, erguiam-na do chão, escalando as reentrâncias do reboco rústico, pouco a pouco.
    Os fios, como uma enorme e felpuda aranha negra, pareciam ter vida própria e se expandiam em silêncio, embora pulsassem como se fossem embalados por uma energia sinistra e invisível, irradiada sabe-se lá de onde.
    Lembro-me nitidamente do terror que me congelava as pernas, subindo pelo meu corpo como os cabelos escuros subiam pela parede. Nenhum som conseguia brotar da secura da minha boca.
    Então, a minha visão foi escurecendo e, quando recobrei a consciência, era de manhã e estava esparramada no tapete da sala vazia. Arrastei-me até o quarto para dormir mais algumas horas e quando acordei novamente, Rogério me chamava para o café. 
   Tudo voltara ao normal. Alberta repousava em silêncio na cadeira de balanço, o Sol invadia a casa pela vidraça, o cachorro latia obstinadamente e o meu amigo de faculdade se preparava para um dia inteiro na praia.
   Demorou um pouco, mas criei coragem e contei a história toda para Rogério. Ele desconversou e me disse que certamente eu teria sonhado com tudo aquilo. 
    — Acho que você é sonâmbula! – disse rindo e, em seguida, percebendo a minha preocupação, mudou rapidamente de assunto.
    Naquela tarde, arrumei as minhas malas e voltei para a Capital, abandonando de vez todo aquele mistério, meu amigo, o Sol, a praia e o barulho infernal daquela fera insistente que rasgava o silêncio do dia.

© Rafael Puertas de Miranda - 2020

segunda-feira, 21 de março de 2016

Capitu, adorável traidora.

 
    Desde que a crítica estadunidense Helen Caldwell publicou, na década de 1960, o inusitado livro: “O Otelo brasileiro de Machado de Assis”, uma verdadeira onda de acólitos, estrangeiros e nacionais, abraçou, nos anos que se seguiram, a causa da plena absolvição da personagem Capitolina, acusada de adultério descarado pelo próprio marido, Bento Santiago, no romance “Dom Casmurro (1899)”, de Machado de Assis. 
    Segundo Helen, o brasileiro comum, vítima de uma mentalidade contaminada por uma estrutura tipicamente patriarcal, machista, tende a enxergar a promiscuidade onde não há e o problemático e obsessivo narrador personagem do romance não merece a mínima confiança. Consolidou-se, desta maneira, a hipótese rala de que não houve traição, para desespero de muitos dos guardiões de nossas letras.
    Em verdade, desde as primeiras páginas de Dom Casmurro, somos apresentados a um Romance “Omisso"; repleto de lacunas a serem preenchidas segundo as orientações de um homem traído. Vários críticos contemporâneos de Machado, entre eles Arthur de Azevedo, repercutiram o lançamento da referida obra, destacando-a como uma empolgante história de traição e o Bruxo do Cosme Velho, que era profundamente cioso de seus textos, nunca escreveu nada a respeito destas análises, desmentindo-as, satirizando-as. Àquela altura, a personagem era tratada como uma traidora.
    A atrevida Capitu, filha de “Pobres-Diabos”, sabe que deve, a todo custo, “entrar” para a casa da endinheirada família Santiago; prover sua ascensão social. Num primeiro momento falha, pois Bentinho, executando a promessa da mãe (falta iniciativa ao coitado para negar sua sina infeliz), interna-se num seminário. 
    Quando tem a oportunidade de retornar à casa materna, o rapaz se depara com uma Capitu inconfortavelmente travestida de “agregada”, fazendo pose de filha substituta na sala de D. Glória. 
    Adiante, a obrigação do seminário é contornada e a moça pode, enfim, livrar-se do fingimento e dedicar-se novamente ao projeto inicial. Agora, nada impediria o casamento dos dois enamorados. Chegara a hora de gozar a plena felicidade. 
    No entanto, para satisfação da sanha devassa do tempo que não costumava ignorar esse tipo de evento caseiro e constrangedor, dois anos escorrem e o casal não é capaz de gerar um filho.     Esse desgosto os atormenta (ambos têm seus motivos); "nada corria bem".
    Bentinho não é o primeiro tipo estéril da galeria Machadiana e ninguém melhor do que o autor realista para abordar tal assunto: Machado não teve filhos (dentro do casamento, segundo as más línguas).
    E, assim, depois de muita espera e reza, nasce uma criança, seguida de uma suspeita, uma certeza, um exílio e, no fim, a solidão.
    Depois desta exposição, espero que não me compreenda mal, querido leitor: Capitu é, surpreendente, moderna. Bem mais interessante e poderosa do que muitas mulheres que encontramos pela estrada à fora (ela torceu o próprio destino). Machismo, portanto, é atestar veementemente que uma moça tão autêntica, decidida, criativa, sedutora e extrovertida não trairia um homem tão esvaziado de iniciativa quanto Bento Santiago, um "boco-moco". Não duvidem: Capitu realizou-se. Ela nos olha.

MIRANDA, Rafael Puertas de. Capitu, adorável traidora. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes,  05 de Junho de 2011. Caderno Variedades, p. 03.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Papo de Arroz: Anderson Magalhães e seu "Desespero".


Ainda nesta semana, entre os trancos e barrancos de uma vida atarefada, chegou aos meus olhos a edição de novembro da revista Actual Magazine (nº 15), distribuída gratuitamente nos municípios da região. Para minha profunda surpresa e decepção, a referida publicação trazia, no seu típico miolo desmiolado, um texto intitulado “Desespero”, escrito pelo colunista social Anderson Magalhães, singelo arroz de festa da noite mogiana.
Valendo-se de um discurso asqueroso, rancoroso e esvaziado de bom senso, Magalhães propõe uma sistemática campanha para evitar que o “povão” vote no segundo turno, o que, segundo ele, resultaria na derrota do grupo político que administra o governo federal; a famigerada “situação”.
Sua ampla concepção de “povão” (leia-se: pobres, imbecis e desclassificados) abrange, de maneira tocante e arbitrária, traficantes, empregadas domésticas, entusiastas do “forró”, porteiros, passageiros de trens e de ônibus, expectadores da TV aberta, analfabetos e, principalmente, Nordestinos.
Segundo o articulista pouco articulado, caso estes indivíduos sejam boicotados, trancafiados, interditados, desintegrados, sequestrados (e etc.); na hora do pleito, o resultado da eleição será (ou seria) outro. Afinal de contas, para que existe a democracia, não é mesmo? Que não saiam da senzala!
Enfim, o fim!
Pouco tempo depois da publicação do texto, Magalhães postou uma breve retratação nas redes sociais, afirmando que fora “mal interpretado” e que sua intenção era apenas a de ser “irônico”. Sua suposta “intenção”, no entanto, não o absolve de suas injúrias e a revista (o contexto da publicação) amplifica a sua brutalidade: não há foto de “povão, segundo Magalhães”, naquelas bandas.
Como sujeito ordinário que sou, usuário de transporte público metropolitano e leitor assíduo de Lima Barreto, Machado de Assis, Fernando Pessoa e Fiódor Dostoiévski, espero que o meu direito de votar não seja usurpado. Nossa democracia é anêmica e, definitivamente, não pode ser alvo de ignorâncias rasteiras dessa natureza.
Também o arroz é vítima de seu próprio veneno. Ao anunciar o eleitor ideal, vocifera: “e, para ter seu voto validado, todos terão de formular uma frase inteira sem erros de concordância e com todos os plurais”; mas, contrariando-se, no início do texto, escorrega feio: “faça com que Dilma e sua corja perca seus votos”! Que é isso, rapaz? Ou vai me dizer que forçou uma "concordância ideológica"? Olha, nesse caso, não há salvação! (Risos).

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Das possibilidades

Mário Cochrane de Alencar (1872-1925) e Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908).

          No interessante trabalho: “Realidade Possível: dilemas da ficção em Henry James e Machado de Assis” (Vol. 41 da Coleção “Estudos Literários” - Ateliê Editorial, 2012), o crítico e professor Marcelo Pen Parreira, ao analisar os pontos de convergência entre o autor norte-americano e o brasileiro com enorme clareza e amplo repertório (dignos de um eficiente “comparatista”), destaca a carência de provas que ajudem a dimensionar com exatidão a ligação, ou o tipo de influência que o autor americano tenha exercido sobre o autor brasileiro.
          Aparentemente, Machado não leu as obras de seu contemporâneo, não as possuía em sua vasta biblioteca e não as teria comentado em seus artigos, cadernos, anotações esparsas e escritos íntimos. Também restam dúvidas quanto ao domínio da língua inglesa. Mesmo traduzindo canhestramente o poema “O Corvo” (de Poe) e até mesmo Oliver Twist (de Dickens), há indícios de que tenha se valido, na verdade, de edições francesas das referidas obras (Machado dominava a língua francesa). Segundo Marcelo Pen: “O certo é que James nunca leu Machado, e é provável que o segundo também não tenha tido grande (ou nenhum) conhecimento do primeiro”.
          Pairando sobre o campo das possibilidades, o jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony (1926-), no ano de 1999, passou a divulgar suas conjecturas a respeito de um intrigante episódio da biografia machadiana. Ao vasculhar o polêmico “Diário Secreto”, do escritor Humberto de Campos (1886-1934), publicado com estardalhaço na revista O Cruzeiro; localizou, num trecho de uma das impressões pessoais do autor maranhense, insinuações de que Machado de Assis seria o pai biológico do também escritor Mário de Alencar, supostamente filho do escritor romântico José de Alencar.
          Mário, filho de Georgina Augusta Cochrane (“filha de um aristocrata britânico excêntrico”), possuía alguns traços fisionômicos de Machado, amigo da família, além de manifestar a mesma enfermidade que debilitava o autor realista: a epilepsia. No final da vida, o bruxo do Cosme Velho o transformou em amigo íntimo, recomendando-o, inclusive, à ABL, onde o rapaz foi agraciado com o título de imortal, tendo apenas publicado um livro (Mário sendo acolhido à casa do pai, ao menos, simbolicamente-?). Também, o romance "Dom Casmurro" (1899) seria uma espécie de espiação: a traidora Capitu seria o alter ego de Machado.
          Dando razão a Cony, resta saber o quanto da cultura inglesa Machado levou consigo destes encontros clandestinos com a mulher de Alencar.
MIRANDA, Rafael Puertas de. Das possibilidades. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 22 de Setembro de 2013. Caderno Variedades, p. 07.


domingo, 8 de setembro de 2013

Da amizade

 
Mário de Andrade. Desenho: Odiléa Setti Toscano
 
          No interessante ensaio intitulado “O Ateneu”, publicado em 1941 e, em seguida, agregado à obra “Aspectos da Literatura Brasileira”, o crítico e poeta modernista brasileiro Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) demonstra sua inquietação diante do fato de que, no referido romance de Raul Pompeia (1863-1895), retrato da vida colegial do narrador protagonista Sérgio (e espécie de vingança do próprio autor contra o seu internamento no colégio Abílio, nos tempos de estudante), predomina um insuperável, trágico e absurdo traço conceptivo: a insensibilidade do escritor fluminense ante a idade da adolescência e o sentimento de amizade.
          Manifestando um temperamento atormentado e polêmico, Raul Pompeia, que poria um fim à própria vida aos trinta e três anos de idade com um tiro certeiro no coração, sempre se esquivara das pessoas e, segundo Mário de Andrade, daí se originaria sua “insensibilidade” diante desse sentimento:
“Parece hoje verdade assentada que Raul Pompeia não teve nenhum amigo íntimo, que lhe frequentasse a casa e a alma nua. Só teve ‘amigos de rua’, diz Eloy Pontes. Rodrigo Otávio, que morou paredes meias com ele, conta que tinham ambos, de sacada a sacada, conversas longas(...). E viveram tempos nesse lerolero sem que jamais Pompeia abrisse ao companheiro as portas de casa. E muito menos de seu coração.
Assim guardado, assim escondido em si mesmo, é possível que ele arrastasse consigo algum segredo mau, uma tara, uma desgraça íntima que jamais teve forças pra aceitar lealmente e converter a elemento de luta e de realização pessoal. E por isso, jamais poude conquistar para seu completamento e aperfeiçoamento, a sublime graça de um amigo íntimo. E o reflexo dessa falha está no Ateneu (...)”.
          Considerando a chave de interpretação sugerida por Mário, pode-se pensar exatamente o contrário em relação ao escritor português Eça de Queirós (1845-1900), que nos presenteou com os mais escaldantes exemplos de amizade disponíveis nas prateleiras dos cascudos romances realistas de fins do século dezenove. Assim o é a personagem Zé Fernandes, de A Cidade e as Serras, como também o "tronco de árvore", o Sebastião, o Sebastiarrão; amigo inseparável de Jorge n’O Primo Basílio.
          Ironias à parte, também faltou a Mário a tal “força” a ser convertida em elemento de luta: há fantasmas no (ar)mário. Entretanto, para o autor de Macunaíma não faltaram amizades verdadeiras.
 
MIRANDA, Rafael Puertas de. Da amizade. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 08 de Setembro de 2013. Caderno Variedades, p. 07.

Da "Teoria do Arroz"

 
          Certa vez, num de seus brejeiros e entusiásticos arroubos arrebatadores de discípulos, Monteiro Lobato sentenciara que a Literatura Brasileira passava por uma crise séria de “falta de vitamina”; avitaminose séria. Isto porque, segundo o pai da Emília, muito escritorzinho, com o intuito de fazer de suas páginas o suprassumo do acabamento da composição, despreza as “insignificâncias da língua viva”. Como resultado, as obras anêmicas desapareciam logo das prateleiras e seus apáticos autores amargavam fundo ostracismo.
          A fim de alinhavar a própria tese, coroando-a com situações históricas análogas, Lobato costumava citar a “teoria do arroz”, passagem célebre da biografia da Vitamina B: “Os holandeses de Java comiam o melhor arroz disponível, arroz polido, e eram devastados pelo beribéri, enquanto os nativos, que comiam arroz da pior qualidade, com película e tudo, desconheciam a moléstia. Até que especialistas descobriram que o preventivo da doença e mesmo o específico do tratamento estavam na casca desprezada do arroz”.
          Em seguida, cuspia sua conclusão, articulada nos seguintes termos: faz parte também dos nossos hábitos literários desprezar pequenos desvios da linguagem falada considerados inúteis e que, na verdade, comportam um grande poder vitamínico. Tanto limpamos o arroz que tiramos dele sua potência. Não há obra literária, portanto, que resista a tanta fraqueza, sobretudo aquelas que apresentam “boa aparência” e conteúdo linguístico ralo.
          Espertalhão, basta uma ligeira espiada em sua obra “adulta” para que se conclua que o pai do Jeca peneirava bem a própria língua. Portanto, a receita sugerida aos colegas fora por ele bem desprezada.
          O tempo passou e o emprego da língua viva na literatura brasileira assentou-se. Se ainda houver dúvida, basta sorver, numa destas noites frias, a nutritiva prosa de um João Guimarães Rosa, entre outros, inclusive, vivos que andam escrevendo por aí. A falta de viço, no entanto, ainda é marca de grande parte da produção contemporânea que circula entre nós e resulta menos de uma linguagem mais despojada do que de uma imprestável mania de se ausentar da realidade, de se ausentar do tempo.
          E isto contribui cada vez mais para o agigantamento do espectro de um Sousândrade, por exemplo, que, no século XIX, discernia todas as engrenagens da sociedade que o circundava e escrevia o “Guesa”, sem fuga, sem "sabiá". Vale!
 
MIRANDA, Rafael Puertas de. Da "Teoria do Arroz". Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 18 de Agosto de 2013. Caderno Variedades, p. 07.


Do primeiro romance nacional II

 
 
          Alguns outros tantos críticos e historiadores da Literatura Brasileira validam o pioneirismo do romance “O filho do pescador”(1843), de Teixeira e Souza. Nelson Werneck Sodré, na sua História da Literatura Brasileira (seus fundamentos econômicos), destaca “Se deixarmos de parte duas ou três contribuições destituídas de importância e só a rigor abrangidas pelo gênero, verificaremos que o primeiro romancista nacional foi Teixeira e Souza”.
           Antônio Cândido, na obra Formação da Literatura Brasileira (Momentos Decisivos), concorda com o pioneirismo da obra do “carpinteiro de Cabo Frio”, ao mesmo tempo em que expõe a baixa qualidade da literatura produzida pelo autor (no capítulo: “Sob o signo do folhetim: Teixeira e Souza”, da referida obra): “Ele representa (o folhetinesco), com efeito, em todos os traços de forma e conteúdo, em todos os processos e convicções, nos cacoetes, ridículos, virtudes”. Também, José Aderaldo de Castello e Luiz Roncari validam a posição do romance.
          Todos os críticos até aqui mencionados, unanimemente, indicam a consagrada obra “A Moreninha” (1844), do Doutor Joaquim Manuel de Macedo, romance muito mais bem acabado, como o segundo do panteão nacional.
          Não sei se o querido leitor se lembra, mas o assunto, “remoído” no percurso anterior, veio à tona em uma teimosa discussão literária de final de tarde e, agora, explico-a. Um amigo das Letras deitara em minhas mãos um caprichado trabalho de sua autoria a respeito da obra “A Divina Pastora”, do escritor porto-alegrense José Antônio do Vale Caldre e Fião.
          A referida narrativa, publicada no Rio de Janeiro em 1847, com o subtítulo “Novela Rio-grandense”, sufocada pelo esquecimento ou vítima de alguma tramoia, desapareceu de nossas prateleiras, sendo redescoberta apenas em 1992 por um livreiro gaúcho, no Uruguai e, no mesmo ano, republicada. Na mencionada pesquisa, a obra é apresentada como o segundo romance da História da Literatura Brasileira, ficando atrás apenas de “A Moreninha”. O leitor pode imaginar o meu espanto. Orientei o colega que me jurou ter executado uma pesquisa acurada em sites diversos. Acabrunhado, decidi visitar alguns dos sites mencionados e, para meu espanto maior, lá o erro se repetia de forma estrondosa.
           Como diria o outro “No Paraguai, a história do Brasil é outra!”, e parece-me que também no Rio Grande do Sul, a história da Literatura Brasileira não é a mesma.
 
MIRANDA, Rafael Puertas de. Do primeiro romance nacional II. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 04 de Agosto de 2013. Caderno Variedades, p. 07.

Do primeiro romance nacional I

 
          Ainda há pouco, numa destas conversas literárias empolgadas que acabam resfolegando sobre o desfiladeiro teimoso das horas, lembro-me bem de citar o pitoresco artigo: Teixeira e Sousa: “O filho do Pescador” e “As Fatalidades de Dous Jovens”, do ilustríssimo e saudoso crítico literário, o senhor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989).
          O Artigo mencionado pode ser encontrado numa republicação de 1977, pelas Edições Melhoramentos, do romance romântico “O filho do pescador”, de Teixeira e Sousa (1812-1861), lançado originalmente no ano de 1943 e, por isso, considerado o primeiro “romance” brasileiro.
          Buarque, no seu texto, apresenta de forma didática a evolução da polêmica em torno de qual narrativa de nossa história literária nacional poderia ter inaugurado a prática romanesca. Explica que, durante muito tempo, Teixeira e Souza fora considerado o pai do romance em nossas plagas. Críticos da envergadura de um Sílvio Romero (“tacitamente”), de um José Veríssimo e Ronald de Carvalho (“de maneira expressa”), sempre validaram a referida primazia. O Sr. Afrânio Peixoto atribuía a Nuno Marques Pereira, com o seu “O Peregrino da América” o direito de precedência; tese que Veríssimo esculachava, haja vista que a referida obra não poderia ser identificada com o gênero Romance (“obra de moral e edificação religiosa”).
          Narrativa que por ventura poderia destituir Teixeira seria “As Duas Órfãs”, publicada em 1841 e batizada pelo próprio autor (Joaquim Norberto) como romance. A narrativa, no entanto, não excede quarenta páginas, sendo, portanto, confortavelmente classificada pela crítica como uma Novela.
          Tentativas anteriores havia — de Pereira da Silva (Jerônimo Corte Real, 1839) e de Varnhagen (Crônica do Descobrimento do Brasil, 1840) — as quais tampouco se identificam com o caráter ficcional da narrativa romanesca.
          Ainda, Buarque relata que, em 1938, o português Ernesto Enes, num, ensaio atestara a existência do romance brasileiro em meados do século XVIII, quando saíram as “Máximas de Virtude e Formosura”, de autoria da paulista, radicada em Portugal, Teresa Margarida da Silva e Orta. A obra, segundo Buarque, não reflete nosso meio. A distinta senhora, então, deve ser observada como autora portuguesa. “(...) O mestiço de Cabo Frio”, vaticina, “é que dá começo à história do nosso romance — do romance brasileiro, situado no Brasil”. (Continua)
 
MIRANDA, Rafael Puertas de. Do primeiro romance nacional I. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 21 de Julho de 2013. Caderno Variedades, p. 07.

Da cultura caipira



Casa Caipira (década de 80), pintura a óleo de Mário Caserta (1920-2004)
Acervo de Rafael Puertas de Miranda - Mogi das Cruzes (SP).
 
          Em 1872, era publicado, o primeiro dos quatro pequenos volumes que viriam a constituir o pitoresco romance “Til”, do escritor cearense, radicado no Rio de Janeiro, José Martiniano de Alencar (1829-1877).
          Filiado à estética do Romantismo, mas sem abdicar de uma linguagem tipicamente brasileira (a acentuação do título “Senhora” – “ó” –, por exemplo, escandalizou os artistas da metrópole, defensores ferrenhos do beletrismo português), Alencar entendia o fazer literário como forma de construção de uma identidade cultural brasileira. Para dar cabo desta tarefa, seus textos procuraram dar ênfase aos valores e à cultura de cada um dos espaços geográficos de nossa nação.
          Foi assim que, em meados de 1871, resgatando as próprias memórias do período em que frequentou o curso de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, onde travou contato com a cultura fazendeira/caipira do interior do nosso estado, Alencar começou os rascunhos de “Til”: “É o Til desses livros que se compõem com material próprio, fornecido pela reminiscência, e que portanto se podem escrever em viagem, sobre a perna, ou num canto da mesa de jantar” (in: Guerra dos Mascates).
          Dentro de sua respeitável obra, este romance “regionalista”, ou “sertanejo”, ou “fazendeiro”, desempenha um papel evidentemente secundário. Falta-lhe o brio de narrativas mais amarradas, falta-lhe a prosa poética de “Iracema” (1865).
          Mesmo assim, evidenciam-se duas qualidades admiráveis. A primeira apresenta-se na diversidade singular da numerosa galeria de personagens que a obra comporta. Em “Til” esbarramos com transfigurações locais dos principais “modelos” consagrados pelo romantismo europeu, fazendo-se notar uma espécie de escala gradual/moral que vai da abnegação total à psicopatia vingativa: o anti-herói resignado, o personagem grotesco para além do bem e do mal, a heroína apaixonada, o típico herói eticamente irrepreensível, o jovem Don Juan/aventureiro, a viúva prestativa, o vilão canastrão etc. Berta (ou Inhá, ou Til – como é apelidada por “Brás”), a protagonista da história, incorpora a típica heroína abnegada e altruísta, beirando a santidade: e não há quem diga que “Deus escreve certo por linhas tortas?”, Deus escreve certo por "~" (til).
          A segunda é a naturalidade e entusiasmo com que o autor nos apresenta os aspectos folclóricos (festas, folguedos, cantigas, costumes), entrelaçando-os ao enredo. Vale!
 
MIRANDA, Rafael Puertas de. Da cultura caipira. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 07 de Julho de 2013. Caderno Variedades, p. 07.

Na Lata, de Frederico Barbosa

 
Frederico Barbosa (1961-)
 
          Escreveu certa vez o poeta francês Paul Valéry (1875-1945): “Nada há de mais original, nada de mais pessoal do que se alimentar dos outros. É preciso, porém, digeri-los. O leão é feito de cordeiro assimilado”. Atentando para as peculiaridades desta sentença, deve-se, portanto, ao analisar a obra poética de determinado autor, também estar atento às transformações que o mesmo impõe a seus “empréstimos”. Onde se lê “influência”, lê-se muita vez interpretação, reação, resistência, atualização, combate. Todo esse processo coroado com o distanciamento do pedantismo barato e superficial a fim de que se construa uma nutrida e sincera dicção poética. Eis a receita da boa poesia contemporânea que circula entre nós.
          Ajusta-se a mencionada chave à recém-publicada obra “Na Lata” (Ed. Iluminuras), que comporta a poesia reunida (de 1978 a 2013) do poeta/performer  e entusiasta da literatura pernambucano, radicado em São Paulo, Frederico Barbosa (1961-). Renegando uma ordenação cronológica de sua trajetória artística literária, que por ventura limitasse a potência expressiva de seus textos, optou o poeta pela original divisão e mistura de todos os seus poemas em distintos blocos temáticos, ressaltando, desta forma, os possíveis diálogos entre as peças (algumas, inclusive, retocadas e revisadas). O resultado da façanha é a completa anulação de uma perspectiva temporal que dá a edição o caráter de ineditismo: “um livro absolutamente novo”, segundo o autor.
 
 
          Ao mergulhar em seus versos, deparamo-nos com o espírito da conduta construtiva de João Cabral de Melo Neto, os espectros da poesia concreta, as imagens pesadas de Eliot, os ecos da prosa poética de James Joyce, a insolência sensual e os arroubos formais de Gregório de Matos, a deglutição dos experimentalismos oswaldianos (fractais), a musicalidade sugestiva dos simbolistas, a dimensão febril de Fernando Pessoa, a pedra rala de Drummond, as folhas da relva, a música popular brasileira, “o oco sem beiras”.
          O reconhecido esmero do poeta na construção de uma linguagem e estrutura a serviço de um “eu” inquieto (inquietação digna de um “siri na lata”, como diriam os caiçaras sabidos) nos arrasta ao olho do furacão de uma realidade liquefeita, teimando convulsão e resvalando no caos (portanto, “Tapa na cara dos reaças!”). Enfim, obra imperdível que deve habitar prateleiras de livrarias que desejam escapar da fama de ordinárias. Vale!
 
MIRANDA, Rafael Puertas de. Na Lata, de Frederico Barbosa. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 23 de Junho de 2013. Caderno Variedades, p. 07.