oleitordesimesmo
Por Rafael Puertas de Miranda - MTB nº 69353/SP
terça-feira, 27 de outubro de 2026
A Causa Nada Secreta, ou "o defunto que confessa assassinato".
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Crônica: A Casa da Dor
Fui ao médico, um ex-aluno querido e meio ressentido por jamais ter recebido um dez meu, culpa que hoje reconheço como exclusivamente dele. Analisou meus exames com a autoridade de quem trocou a sala de aula pelo consultório e sentenciou, professoralmente:
— Bom, o senhor tem quarenta e cinco anos e triglicérides e colesterol altos. Vai ter de ir à academia. Do contrário, é melhor agendar um horário com Machado de Assis!
Como, por ora, ainda não desejo estudar a “geologia dos campos santos”, matriculei-me numa academia perto de casa. Eu, antigo adepto do lema “Academia? Prefiro atrofiar!”, ingressei nesse novo universo com a dignidade possível de quem já puxou muitos livros ao longo da vida.
A academia revelou-se rapidamente a "Casa da Dor" e meu filho adolescente, convicto praticante do fitness, tornou-se meu carrasco do bem, desses que sorriem enquanto ajustam a carga para além da misericórdia humana.
A maromba, esse universo particular, passou a ocupar alguns dias da minha semana e, como todo ambiente novo, começou a infiltrar-se também na linguagem. Palavras inéditas passaram a anabolizar meu vocabulário. Entre todas, “supino” me pareceu a mais bonita. Busquei-lhe a raiz etimológica e descobri, com satisfação erudita, que “supino” é estar com as costas voltadas para o chão. Uma palavra que cai bem a quem já vive meio deitado pela fadiga do sedentarismo literário.
Além das palavras, surgiram as pessoas. Algumas, mesmo desconhecidas, ascenderam ao seleto grupo do “conhecer de vista e de chapéu”. Entre elas, há um senhor com a minha idade e, infinitamente, mais músculos e cabelos do que eu. Chamou-me a atenção de imediato. Ele é adepto do esforço sonoro: geme, suspira, verbaliza cada repetição como se estivesse parindo o próprio halter. Eu, por minha vez, já me canso no primeiro nível de qualquer aparelho. Ainda assim, reconheci entre nós uma certa irmandade: somos os únicos que não utilizam fones de ouvido naquela masmorra.
Pensei, certa vez, em lhe desejar boa tarde. Um gesto mínimo, civilizatório. Mas desisti. Esse tipo de aproximação pode chocar demais as outras sombras da "Casa da Dor", seres concentrados, encapsulados em seus fones, que transpiram sem se ver, que se arrastam sem trocar palavras.
Na academia de ginástica, esse panteão do exterior, falar é quase um ato subversivo. Ali, o que passa por dentro não interessa. Só o músculo visível tem direito à existência. O resto deve suar em silêncio.
Rafael [P]uertas de Miranda
Mogi das Cruzes, 28 de Fevereiro de 2026.
terça-feira, 7 de maio de 2024
Da Importância dos Clássicos
"Jazia Santo Inácio (não digo bem), jazia Dom Inácio de Loyola, malferido de uma bala francesa no cerco de Pamplona, e aborrecido, como valente que era, de ter perdido um castelo (fortaleza), pensava outros maiores castelos (fortalezas), pelas medidas dos seus espíritos. Já lhe parecia pouca defesa Navarra (cuja capital era Pamplona), pouca medida os Pirineus (cordilheira próxima, separando a Espanha, e sua província Navarra, da França), pouca conquista a França. Considerava-se capitão, e espanhol, e rendido (derrotado); e a dor lhe trazia a memória como Roma em Cipião, e Cartago em Aníbal foram despojos de Espanha: os Cids, os Pelaios, os Viriatos, os Lusos, os Geriões, os Hércules (antigos heróis lendários da Península Ibérica, Portugal e Espanha), eram os homens com cujas semelhanças heroicas o animava, e inquietava a fama, mais ferido da reputação da pátria, que das suas próprias feridas.Cansado de lutar com pensamentos tão vastos, pediu um livro de cavalarias para passar o tempo; mas oh Providência Divina! Um livro que só se achou era das vidas dos Santos. Bem pagou depois Santo Inácio em livros o que deveu a este. Mas vede quanto importa a lição de bons livros. Se o lera cavalarias, sairia Inácio um cavaleiro da ardente espada; leu vida de santos, saiu um Santo de ardente tocha (Lc 12,35: "Estejam as candeias acesas em vossas mãos"). Toma Inácio o livro nas mãos: lê-o a princípio com dissabor; pouco depois sem fastio; ultimamente com gosto; e dali por diante com fome, com ânsia, com cuidado, com desengano, com devoção, com lágrimas."
terça-feira, 23 de abril de 2024
Tese PUERTAS, sobre o enredo do romance Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis.
terça-feira, 27 de abril de 2021
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
Conto "A Aranha", de Rafael Puertas de Miranda.
Eu não acredito em assombração ou em forças sobrenaturais, mas ainda não me recuperei completamente daquele acontecimento atordoante.
Era um feriado prolongado e as atividades na Universidade estavam suspensas. Meu colega de quarto, Rogério, convidou-me para passar estes dias mortos na casa de sua Tia Alberta, que vivia em Ubatuba.
A viagem foi agradável e sem imprevistos. Chegamos à residência de Alberta no final da tarde. Era uma casa assobradada, espaçosa e arejada. As enormes paredes da sala eram adornadas com máscaras tribais, talvez de origem havaiana, que combinavam com a atmosfera do lugar.
Uma enfermeira cuidava da parenta de Rogério que, por conta de algum acontecimento traumatizante desconhecido da família, passava os dias em silêncio, sentada numa cadeira de balanço, penteando seus longos cabelos negros como a noite. Chegaram a cogitar um grave quadro depressivo.
Senti certa tristeza, pois esperava uma recepção mais calorosa. A senhora idosa, com seus olhos estáticos, enchia-me de aflição. Sentada no sofá, acompanhava seus movimentos metódicos. Às vezes, esperava que ela se mexesse e se levantasse, rompendo subitamente com aquele estado de transe que teimava abismo.
— Mas esse cachorro não para de latir nunca? – disse Rogério, incomodado com o cão do vizinho, enquanto levava nossas malas para os quartos, no andar de cima.
O animal, desde a nossa chegada, manifestava uma irritação anormal.
— Acho que esse cachorro é louco! Mudou há pouco para cá. Átila é o nome dele. Passa o dia inteiro latindo. – explicou a enfermeira, já acostumada com os desvarios do cão.
Lembro-me bem de que, quando me deitei para dormir, na cama do quarto de hóspedes, ainda ouvia os latidos do nosso vizinho inconveniente. Levou tempo para que eu pegasse no sono.
De madrugada, aconteceu o incidente. Meio enjoada, despertei com uma sede terrível. Percebi, antes de sair do quarto em busca de um copo com água, que havia algo de diferente.
Demorei para me dar conta de que o cão amalucado estava em silêncio profundo. Decerto, esgotou-se e agora, inerte como uma pedra, dormia em algum canto do jardim; pensei comigo.
Desci as escadas, preocupada em não fazer barulho. Não queria acordar ninguém. Já estava saltando o último degrau, quando notei, de soslaio, um movimento estranho, num dos cantos da sala.
Virei-me rapidamente e vi uma cena inexplicavelmente bizarra. Alberta estava de pé próxima à parede e seus cabelos, como se fossem dotados de vontade própria, erguiam-na do chão, escalando as reentrâncias do reboco rústico, pouco a pouco.
Os fios, como uma enorme e felpuda aranha negra, pareciam ter vida própria e se expandiam em silêncio, embora pulsassem como se fossem embalados por uma energia sinistra e invisível, irradiada sabe-se lá de onde.
Lembro-me nitidamente do terror que me congelava as pernas, subindo pelo meu corpo como os cabelos escuros subiam pela parede. Nenhum som conseguia brotar da secura da minha boca.
Então, a minha visão foi escurecendo e, quando recobrei a consciência, era de manhã e estava esparramada no tapete da sala vazia. Arrastei-me até o quarto para dormir mais algumas horas e quando acordei novamente, Rogério me chamava para o café.
Tudo voltara ao normal. Alberta repousava em silêncio na cadeira de balanço, o Sol invadia a casa pela vidraça, o cachorro latia obstinadamente e o meu amigo de faculdade se preparava para um dia inteiro na praia.
Demorou um pouco, mas criei coragem e contei a história toda para Rogério. Ele desconversou e me disse que certamente eu teria sonhado com tudo aquilo.
— Acho que você é sonâmbula! – disse rindo e, em seguida, percebendo a minha preocupação, mudou rapidamente de assunto.
Naquela tarde, arrumei as minhas malas e voltei para a Capital, abandonando de vez todo aquele mistério, meu amigo, o Sol, a praia e o barulho infernal daquela fera insistente que rasgava o silêncio do dia.
© Rafael Puertas de Miranda - 2020
segunda-feira, 21 de março de 2016
Capitu, adorável traidora.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Papo de Arroz: Anderson Magalhães e seu "Desespero".
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
Das possibilidades
![]() |
Mário Cochrane de Alencar (1872-1925)
e Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908).
|
No interessante trabalho: “Realidade Possível: dilemas da ficção em Henry James e Machado de Assis” (Vol. 41 da Coleção “Estudos Literários” - Ateliê Editorial, 2012), o crítico e professor Marcelo Pen Parreira, ao analisar os pontos de convergência entre o autor norte-americano e o brasileiro com enorme clareza e amplo repertório (dignos de um eficiente “comparatista”), destaca a carência de provas que ajudem a dimensionar com exatidão a ligação, ou o tipo de influência que o autor americano tenha exercido sobre o autor brasileiro.
domingo, 8 de setembro de 2013
Da amizade
![]() |
| Mário de Andrade. Desenho: Odiléa Setti Toscano |
Manifestando um temperamento atormentado e polêmico, Raul Pompeia, que poria um fim à própria vida aos trinta e três anos de idade com um tiro certeiro no coração, sempre se esquivara das pessoas e, segundo Mário de Andrade, daí se originaria sua “insensibilidade” diante desse sentimento:
Assim guardado, assim escondido em si mesmo, é possível que ele arrastasse consigo algum segredo mau, uma tara, uma desgraça íntima que jamais teve forças pra aceitar lealmente e converter a elemento de luta e de realização pessoal. E por isso, jamais poude conquistar para seu completamento e aperfeiçoamento, a sublime graça de um amigo íntimo. E o reflexo dessa falha está no Ateneu (...)”.
Da "Teoria do Arroz"
Do primeiro romance nacional II
Do primeiro romance nacional I
Da cultura caipira
![]() |
|
Casa Caipira (década de 80), pintura a óleo de Mário Caserta (1920-2004)
Acervo de
Rafael Puertas de Miranda - Mogi das Cruzes (SP).
|
Na Lata, de Frederico Barbosa
![]() |
| Frederico Barbosa (1961-) |
.png)














