terça-feira, 27 de outubro de 2026

A Causa Nada Secreta, ou "o defunto que confessa assassinato".


   Há pouco tempo, fui entrevistado por uma estudante de Jornalismo, interessada em conhecer minhas impressões acerca dos hábitos de leitura da juventude. Queria saber, entre outras coisas, se as redes sociais desempenhavam um papel importante na formação de novos leitores. Respondi que sim, mas acrescentei um porém. E, como sabem os leitores de Machado de Assis, há poréns capazes de arruinar uma bela afirmação.
    As redes sociais, argumentei, certamente contribuem para divulgar o objeto livro, convertido, não raro, em uma espécie de capital simbólico. Exibe-se a capa, fotografa-se a estante, celebra-se a aquisição, recomenda-se a obra, anuncia-se a leitura. O livro circula, ganha admiradores, torna-se desejável. Até aí, nada a questionar. O problema começa quando confundimos a circulação do objeto com a experiência da leitura.
    Ler, afinal, exige tempo. E tempo, sobretudo aquele que não se deixa converter imediatamente em engajamento, é artigo pouco estimado pelos safados algoritmos. A leitura literária, com suas hesitações, ambiguidades, digressões e silêncios, não parece especialmente compatível com a velocidade de um dedo que desliza pela tela.
    Não afirmo, evidentemente, que as redes sociais sejam incapazes de formar leitores. Seria trocar uma simplificação por outra. O que me inquieta é a possibilidade de estarmos formando, com extraordinária eficiência, consumidores de livros que nem sempre se convertem em leitores de Literatura.
    Para ilustrar meu argumento, apresentei à estudante um exemplar de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), do escritor brasileiro Machado de Assis. Escolhi um episódio particularmente sinistro do romance, desses que costumam escapar às sinopses apressadas, às resenhas entusiasmadas e às adaptações empenhadas em tornar simpático o que nasceu para causar desconforto.
   Expliquei-lhe que abundam páginas, perfis e sítios eletrônicos dedicados a divulgar a referida obra. Poucos, entretanto, parecem dispostos a demorar-se no que efetivamente está escrito. Há uma multidão convidando-nos a conhecer Brás Cubas (até gringos!); nem todos nos convidam a desconfiar dele.
    E foi então que lhe revelei um hábito meu, talvez menos recomendável do que a leitura silenciosa, mas infinitamente mais divertido para quem o pratica. Tenho um hobby estranho: adoro ler Machado de Assis em voz alta para as pessoas, ensinando-as a perceber as sutilezas, armadilhas e malícias deste exímio e deliciosamente insidioso escritor, o Bruxo do Cosme Velho.
    Às vezes, torcem o nariz. Outras, tapam os ouvidos. Há ainda quem finja dormir enquanto me empolgo com a leitura. Há também aqueles que, irmanados pelo amor à Literatura, deixam-se embalar, e eu seria injusto se os deixasse de fora do batel. Não raro, essa tortura é necessária, e sigo firme na minha causa nada secreta. 
    Explico.
  Tenho observado, estarrecido, uma tendência curiosa nas redes: apresentar Brás Cubas, narrador-protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas, como uma espécie de herói. Herói do livro que dialoga com a obra, da história em quadrinhos que a adapta, do game nela inspirado, do anime que lhe expande o universo e assim por diante.
    Nada tenho contra as adaptações. O próprio Machado, se vivo estivesse, talvez se divertisse com algumas delas. Com outras, suponho, reservaria um daqueles sorrisos que não sabemos se são de aprovação ou escárnio, teimando a Gioconda.
    Ocorre que Brás Cubas, esse figurão da elite carioca do século XIX, não é um herói. Tampouco uma espécie de alter ego do autor, ou seu sósia. Brás Cubas é perverso. E mais: é um ASSASSINO.

“— Assassino? Lá vem o Professor Puertas com suas teses miraculosas…” (Dizem discentes, quando a escutam pela primeira vez.)

    Não, não se trata de uma tese miraculosa. Trata-se de levar a sério o que está escrito. E, neste caso, o morto fala mais do que deveria. Vamos ao texto.
    No Capítulo XI, significativamente intitulado “O menino é o pai do homem”, o narrador confessa, sem qualquer constrangimento:

“Desde os cinco annos merecera eu a alcunha de «menino diabo»; e verdadeiramente não era outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negára uma colhér do doce de coco que estava fazendo; e, não contente com o maleficio, deitei um punhado de cinza ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragára o doce «por pirraça»; e eu tinha apenas seis annos.”

    O leitor não leu errado: “um dia quebrei a cabeça de uma escrava”.
    Repare-se na extraordinária naturalidade da confissão. Um menino branco, filho da elite escravocrata, quebra a cabeça de uma mulher negra escravizada porque esta lhe negara uma colher de doce de coco. Não satisfeito, lança cinzas ao tacho e atribui à própria vítima a responsabilidade pelo estrago.
  Detenhamo-nos, por um instante, no verbo: “quebrou”. Não ameaçou, não empurrou, não insultou. Quebrou-lhe a cabeça.
    Machado de Assis, escritor realista, emprega uma construção de clareza brutal, quase obscena em sua simplicidade. Não há floreios, imagens rebuscadas ou qualquer sentimentalismo capaz de atenuar a violência. E, no entanto, parece que justamente por ser tão direta ninguém se detém nela. Lemos a frase, atravessamos o episódio e seguimos adiante, como se quebrar a cabeça de uma mulher escravizada fosse apenas mais uma estultice do pequeno Brás.
    Minha leitura é literal, como manda a cartilha do Realismo, e dela retiro uma consequência terrível: a mulher teria sido morta pelo menino. O narrador não registra expressamente esse desfecho, é verdade, mas tampouco oferece explicação que torne menos brutal o gesto confessado. A expressão permanece ali, diante de nossos olhos, com toda a violência que comporta.
    Talvez seja esse o maior triunfo da perversidade narrativa: fazer com que o leitor reproduza, inadvertidamente, a indiferença do narrador (um jogo de espelhos).
    E há um detalhe ainda mais perturbador. A mulher escravizada exercera, naquele instante, alguma autoridade sobre o menino. Fora capaz de lhe negar o doce, de impor um limite ao pequeno senhor. Autoridade mínima, é verdade, mas suficiente para despertar a violência de quem, desde o berço, aprendera a confundir seus caprichos com direitos.
   Depois da agressão, vem a segunda violência: a fabricação da culpa. Brás Cubas não apenas destrói o que a mulher preparava, mas inventa uma versão dos acontecimentos que a transforma em responsável pelo próprio prejuízo. A vítima converte-se em culpada, e o agressor, em testemunha privilegiada de sua própria inocência.
    E quem haveria de contestá-lo?
  Na leitura que proponho, a mulher escravizada estava morta. Aquela que, momentos antes, possuía autoridade suficiente para negar uma colher de doce ao menino já não poderia defender-se da acusação que ele inventara. Sua palavra fora definitivamente silenciada. Brás Cubas, depois de lhe quebrar a cabeça, ainda se encarregava de construir a versão dos fatos que chegaria aos ouvidos da mãe.
    Eis a perversidade que me interessa destacar: a única pessoa capaz de desmentir o menino seria justamente aquela que, tendo sido morta por ele, já não poderia falar. A autoridade que a mulher exercera sobre o pequeno senhor desaparece diante de uma violência absoluta. Resta a palavra do agressor, livre para atribuir à vítima a culpa pelo doce estragado.
    Não há remorso. Não há indignação. Há uma lembrança pitoresca da infância, convenientemente acomodada entre as travessuras de um menino voluntarioso. E Brás Cubas ainda se permite tranquilizar o leitor, alguns parágrafos adiante:

“Não se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabeça dos outros.”

    Notável defesa! O réu apresenta a acusação, preside o julgamento e, antes que o leitor formule sua sentença, trata de absolver-se. Machado de Assis, entretanto, não absolve; denuncia.
    E o faz sem precisar interromper a narrativa para proferir uma sentença moral. Basta conceder a palavra a um representante daquela perversa elite escravocrata de fins do século XIX e permitir que ele exponha, com a desenvoltura dos que jamais precisaram prestar contas, a monstruosidade de sua própria formação.
    O horror não está apenas no gesto. Está na maneira de contá-lo. E, talvez, na facilidade com que continuamos a lê-lo sem perceber sua dimensão.
      E não se trata de episódio isolado.
   No capítulo CXXIII, Brás Cubas descreve o cunhado Cotrim, conhecido pela brutalidade com que tratava pessoas escravizadas:

“O unico facto allegado neste particular era o de mandar com frequencia escravos ao calabouço, donde elles desciam a escorrer sangue; mas, além de que elle só mandava os perversos e os fujões, occorre que, tendo longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco mais duro que esse genero de negocio requeria, e não se póde honestamente attribuir á indole original de um homem o que é puro effeito de relações sociaes.”

    Observem a engenhosidade do argumento.
   Cotrim mandava açoitar pessoas escravizadas até que escorressem sangue. Mas havia uma explicação: o comércio de seres humanos o habituara a um tratamento mais severo. A culpa, portanto, não seria propriamente dele, mas das circunstâncias sociais.
   A perversidade é diluída na sociologia. A violência, racionalizada e o crime, naturalizado.
   Eis o prodígio da retórica de Brás Cubas: transformar a crueldade em circunstância atenuante. O homem que negociava seres humanos e os submetia a castigos sanguinários aparece quase como vítima dos hábitos adquiridos no exercício de sua profissão.
     Há ainda Prudêncio, o menino escravizado que Brás Cubas utilizava como cavalo, montando-lhe às costas e castigando-o com um chicote (esse trecho ilustrou, recentemente, uma questão do Vestibular da UNICAMP). Anos depois, já alforriado, Prudêncio reproduz a violência sofrida, açoitando outro homem escravizado.
       A cena é desconcertante. O oprimido, uma vez investido de algum poder, passa a reproduzir os mecanismos de opressão que o constituíram. A liberdade jurídica não desfaz, por si só, as marcas de uma sociedade organizada sobre a humilhação.
     E Brás Cubas? Observa tudo com a distância confortável de quem jamais precisou experimentar o outro lado do chicote. Cismo, inclusive, que há nesse universo de violência senhorial ecos de uma história real, contemporânea à publicação do romance e quase esquecida. Refiro-me à morte do menino escravizado Inocêncio, em um caso de extrema crueldade que envolveu a poderosa Baronesa do Grajaú, no Maranhão, em 1876. A baronesa escapou à punição.
        Não pretendo afirmar que Machado tenha necessariamente se inspirado nesse episódio. A aproximação, entretanto, é perturbadora. A ficção machadiana e a realidade brasileira parecem compartilhar uma mesma gramática da violência: a impunidade dos poderosos e a desumanização daqueles sobre os quais exercem seu domínio.
       Voltemos, pois, à estudante de Jornalismo e à pergunta que deu origem a esta digressão.
        As redes sociais podem divulgar Memórias Póstumas de Brás Cubas a milhões de pessoas. Podem transformar sua capa em objeto de desejo, seu protagonista em personagem pop e seu autor em celebridade internacional. Nada disso, por si só, constitui um problema.
    O problema é quando a divulgação substitui a leitura. Quando a familiaridade com o nome de uma obra passa a valer como conhecimento de seu conteúdo. Quando a complexidade de um personagem é sacrificada para que ele caiba numa postagem, numa tendência ou numa narrativa facilmente consumível.
    A Literatura, ao contrário dos algoritmos, não foi feita para confirmar continuamente nossas expectativas. Entre seus maiores méritos está justamente o de contrariá-las.
       Diante de Brás Cubas, portanto, o gesto crítico não consiste em admirá-lo, muito menos em transformá-lo num herói pop “fofinho”, uma espécie de Sherlock Holmes brasileiro, mas em reconhecer sua perversidade, sua adesão confortável às injustiças sociais, sua frieza diante da dor alheia e seu cinismo descarado. Podemos admirar a construção literária de Brás Cubas sem admirar Brás Cubas. Aliás, suspeito que a grandeza de Machado resida precisamente nessa distinção.
    E há, por último, uma ironia que não me escapa.
    Capitu, a pobre filha dos Pádua, continua sendo julgada, em salas de aula Brasil afora, por muito menos: uma mera traição. Brás Cubas, entretanto, que nos oferece de própria boca um inventário de violências, crueldades e indignidades, corre o risco de ser celebrado como herói. Curioso país este, em que uma mulher precisa responder eternamente por seus amores, enquanto um vampiro apático pode confessar suas brutalidades e ainda conquistar a simpatia dos leitores.
     Talvez o problema não esteja apenas na maneira como lemos Machado de Assis. Talvez esteja, também, na maneira como continuamos a ler o Brasil.
    Quanto à estudante de Jornalismo, não sei se a convenci. Espero, ao menos, não lhe ter provocado aversão à Literatura.
    E, quanto aos meus ouvintes e leitores habituais, podem continuar torcendo o nariz, tapando os ouvidos ou fingindo dormir.
      Persistirei na tortura. Afinal, há ainda livros que todos recomendam, personagens que todos conhecem e crimes que quase ninguém percebe, riscados em páginas perdidas por aí. A minha causa, como se vê, não tem nada de secreta.

Prof. Esp. Rafael Puertas de Miranda
Mogi das Cruzes (SP), 27 de Outubro de 2026.
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