domingo, 22 de julho de 2012

Da Partícula II

As duas definições capazes de explicar a origem do apelido da partícula recém-descoberta, o "Bóson de Higgs", não se excluem e, de fato, a fusão das duas nos oferece a explicação verdadeira: Lederman utilizou a analogia ao episódio bíblico da torre de Babel ("Ao mesmo tempo, há muitos milênios, muito antes da escrita destas palavras bíblicas, a natureza falava apenas um idioma") e, por isso, pensara num título/trocadilho "The God damn Particle" (Partícula Deus/Maldita), mas, sob orientação de seu editor, substituíra-o por "The God Particle". 
A explicação, no entanto, não justifica a bizarra versão do apelido, difundida com vigor pelos principais meios de comunicação: "A Partícula de Deus". Carregada de simbologia, a expressão ainda fora acoplada a "pacotões culturais". Um deles gerou estes artigos.
Virtualmente, um sujeito me disse que "agora que os cientistas localizaram esta partícula, serão capazes de construir uma bomba poderosíssima". Perguntei-lhe de onde lhe tinha vindo esta ideia e o mesmo me respondeu: "Por acaso você não leu Anjos e Demônios?". O indivíduo abandonou o "chat" sem me dar tempo de esclarecer a confusão. 
Acontece que, no famigerado livro "Anjos e Demônios", lançado no Brasil em 2003, o medíocre Brown, para justificar sua fraca trama, sequestra erroneamente o conceito de distinto campo da física: a "Antimatéria". Na obra, cientistas conseguem armazenar antipartículas e um vilão se apropria das mesmas a fim de utilizá-las como um poderoso explosivo. 
Em verdade, os cientistas já produziram algumas antipartículas, comprovando teorias científicas anteriores, e também é verdade que a mistura de matéria com antimatéria levaria ao aniquilamento de ambas, mas ainda não conseguimos armazená-las por mais de um décimo de segundo. Também, a expressão/versão "Partícula de Deus" aparece apenas uma vez na trama (quando Langdon observa a estante de um cientista e localiza nela o livro de Lederman). Na adaptação cinematográfica, a confusão ainda é maior. Ao assisti-la, tem-se por certo que a partícula aprisionada é a "partícula de Deus". Parece-me, portanto, que tanto os Deuses quanto as Partículas, dadas suas devidas concretudes, estarão sempre à mercê de interpretações equivocadas, tendenciosas e paranoicas, providas pela mesma contraditória força, quiçá a mais poderosa de todas, a mais bela e a mais indomável: que se apelida a "Mente Humana".

MIRANDA, Rafael Puertas de. Da Partícula II. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 15 de Julho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Da Partícula I


Na última quarta-feira, enquanto a barulhenta torcida "Didelphis sp" (Gambá) comemorava o título inédito e enciumados esfarelavam pés de mesas com os próprios dentes, alguns curiosos ainda digeriam, embasbacados, o surpreendente comunicado oficial dos responsáveis pelo Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN), que, num seminário em Genebra, anunciara, na tarde daquele mesmo agitado dia, a verificação segura da descoberta de uma partícula possuidora das características previstas, na década de 70, pela difundida teoria do físico britânico Peter Higgs: estava descoberto o célebre "Bóson de Higgs". 
A façanha experimental, considerada a maior descoberta científica dos últimos cinquenta anos e que só fora possível graças ao aparato tecnológico conhecido pela sigla LHC (Grande Colisor de Hádrons - enorme acelerador de partículas construído sob a fronteira da Suíça e da França - espécie de túnel anelar com 27 km de extensão capaz de embalar prótons, quase à velocidade da luz, para que os mesmos se colidam e, como resultado dessa colisão, desdobrem-se em outras efêmeras partículas não conhecidas), em poucas horas, desencadeou discussões acaloradas na Internet. 
Acontece que a partícula, elemento fundamental para o entendimento da composição e do funcionamento da matéria visível no Universo (imagine, querido leitor, um grosso caldo de afogado; assim é o campo gerado pelo B. de H., com o qual as outras partículas interagem e que, por isso, determina - dita - a massa das mesmas), dada sua importância para compreensão científica das coisas como conhecemos (eu, você, uma abóbora, uma estrela, uma alface), acabou se embrenhando na cultura popular por intermédio de uma interpretação equivocada do apelido dado pelo físico americano Leon Lederman: "a partícula Deus".
Duas explicações divergentes para a origem do apelido foram divulgadas pela mídia impressa no dia seguinte: 
- a primeira afirma que Lederman, ao publicar o livro intitulado "The God Particle", tenha feito uma analogia à história bíblica da Torre de Babel: "Deus, furioso, faz com que todos falem línguas diferentes" - "B.H. faz partículas possuírem massas diferentes".
- a segunda afirma que o mesmo livro citado acima se chamaria "Goddamn Particle" (Maldita Partícula), porque ela nunca era detectada. Mas seu editor o convenceu a alterar o título para "God Particle".
(Continua - Não perca: Da Partícula II: e a Literatura?)

MIRANDA, Rafael Puertas de. Da Partícula I. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 08 de Julho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

A Cruzada das Crianças


Há alguns anos, enquanto perambulava distraído por Sebos paulistanos em busca de livros velhos para saciar minha fome de novidade, encontrou-me uma singular obra -e que o querido leitor se acostume com estas insistentes prosopopeias livrescas, inquietudes: para mim os livros espreitam, respiram. 
Tratava-se da belíssima 14º edição ilustrada da "História da Civilização", do digníssimo intelectual pernambucano Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), publicada, em 1965, pelas Edições Melhoramentos (diga-se de passagem, uma das editoras responsáveis pela história do livro no Brasil -fundada em 1890). 
Diferente das enfadonhas e coloridas brochuras modernas, que não suportam um respingo ou uma dentada de cupim (que os biólogos me perdoem), o achado resistira ao tempo graças ao seu robusto acabamento e agora repousava em minhas mãos. Seu autor, bibliófilo célebre (reuniu o terceiro maior acervo de livros sobre o Brasil de que se tinha notícia nas primeiras décadas do século XX: perdia apenas para a Biblioteca Nacional e para a biblioteca da Universidade de São Paulo), aprovaria o formato.
Resultado de uma dedicada pesquisa histórica e lançada em 1919, a obra é uma espécie de compêndio muito bem organizado de eventos e também uma interessante reflexão sobre as civilizações e culturas apresentadas (entenda-se que a Quarta parte do livro, Idade Contemporânea, refere-se a eventos da época do autor). 
Enfim, desprezando o típico nojo da "data de validade vencida", uma bela companhia para matar o tédio das tardes cinzentas. E numa delas, avançando os dedos por sobre as encardidas páginas dedicadas à Idade Média, deparei-me com um tópico breve e curioso: o relato da Cruzada das Crianças, que, em 1212, contou com a participação de aproximadamente trinta mil pequeninos.
Rapidamente, tomei nota do movimento pitoresco e trágico, sabendo que poderia utilizá-lo como mote de algum texto. O texto não veio. 
Mas, pouco tempo depois, acabei me deparando com a fantástica obra "A Cruzada das Crianças"(1896), do francês Marcel Schwob (1867-1905). 
O livreto, publicado em edição bilíngue pela Ed. Iluminuras em 1987, fora traduzido por Milton Hatoum e é uma espécie de conjunto de relatos de possíveis protagonistas ou testemunhas de acontecimentos relacionados ao referido assunto. 
Crianças que se perderam e, às vezes, são os ratos do Gaiteiro de Hamelim. Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. A Cruzada das Crianças. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 01 de Julho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

A troca e "O Barão"


Definitivamente, querido leitor, uma das atividades humanas mais prazerosas, praticada por teimosos entusiastas e admiradores do fazer artístico em suas mais diversas ramificações e modalidades (ou "culturalistas", como diria minha mestra), seja a entusiasmante "troca de referências".
Hoje, diversos são os multissemióticos meios (redes sociais, app´s, etc) que, além de competentemente promoverem a banalização da vida cotidiana por intermédio da construção de uma acolhedora hiper-realidade, promotora da indústria cultural de massa e responsável pela entronização da sanha pelo consumismo louco; talvez sejam capazes de ampliar as possibilidades deste tipo de experiência. No entanto, desconheço mecanismo mais significativo do que uma boa e simples conversa (olhos nos olhos), ao embalo do precário tempo que nos resta entre os espaços das horas alheias.
Assim, conheci diversas obras, indiquei outras tantas, (re)descobri autores, resgatei textos desconhecidos, revi certas posturas críticas enraizadas na minha formação, cresci. Amigos, se soubessem da minha imensa gratidão! Quis o acaso que não fossem raros os episódios desta natureza em minha vida. Como é vasto o "repertório culturalista" de nossa cidade (patrimônio humano!).
Pois então. Numa destes diálogos, um amigo me recomendou a Novela "O Barão" (1942), do escritor português Antônio José Branquinho da Fonseca (1905-1974). Alguns "Contos" do autor (como o magnífico "As mãos frias"), já haviam desfilado diante de meus olhos e seu nome decerto figurara em alguma "lousa perdida" sobre a Revista Presença. Mas, esta incrível "Novela", que, de forma simplória, é um gênero narrativo em prosa intermediário, escapara-me.
No texto, um curioso narrador personagem, inspetor de escolas de instrução primária, que viaja constantemente para dar cabo de suas funções, reconstitui os eventos relacionados a sua curta estadia numa cidade interiorana, quando, a convite de um temido e decadente Barão, hospeda-se em seu suntuoso solar. O nobre, sanhoso do contato com a civilização, envolvendo o visitante com um monólogo sôfrego, arrasta-o para uma etílica jornada, madrugada adentro, onde respostas ocultas se embrenham. 
A narrativa, sem experimentalismos, é carregada de ambiguidades. No plano simbólico, arquétipos interagem a fim de contrastar o passado com o presente; ruínas. 
Grande experiência literária! Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. A troca e O Barão. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 24 de  Junho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Ulisses, ou a balada do Sr. Bloom


Ontem, querido leitor, contrariando a lógica infalível das coisas importantes, o imediatismo teimoso das grandes lutas e a modorra silenciosa dos sábados em transe, alguns leitores e fãs brasileiros, sozinhos ou acompanhados, em bares ou no silêncio dos quartos, debruçaram-se uma vez mais sobre as páginas surradas, sejam elas novas ou encardidas, de alguma das edições daquele que é, sem sombras de dúvida, um dos Romances mais inovadores e belos do século XX, Ulisses (1922), do escritor irlandês James Joyce. 
A obra, que, a partir de 2012, entrou em domínio público (em breve veremos uma enxurrada de novas edições), é uma espécie de demolição do Gênero Romanesco, carregada de experimentalismos e profunda reflexão acerca da vida e do fazer literário. Com uma linguagem extremamente poética, truncada, carregada de neologismos, inovações sintáticas, somada ao emprego da técnica de fixação do "fluxo de consciência", por intermédio da qual se registra o pensamento integral de uma personagem - o raciocínio lógico ilhado de impressões e o acompanhamento paciente do processo de livre associação de ideias -; acompanhamos a saga de um dia (mais precisamente 18 horas) do Leopold Bloom, um judeu que vende anúncios. Espécie deslocada, pensador e alvo de todas as injúrias do mundo (profundamente humano, por isso), Bloom peregrina pela Dublin do início do século, atormentado pela memória do filho natimorto, causa aparente de sua infelicidade conjugal. A trajetória da personagem, típico anti-herói patético, dialoga e reconstrói a saga do herói homérico Ulisses e sua viagem de volta para Ítaca. No texto de Joyce, no entanto, o retorno adiado é o retorno para casa, para sua esposa Molly (Penélope). Durante o trânsito encontra o entusiasmante jovem Stephen Dedalus (Telêmaco), passando com ele algumas horas de seu dia. Este breve relacionamento "interafetivo", de estreita conciliação de angústias, culmina na experiência a três mais interessante e reflexiva de toda a Literatura: a divisão do leito conjugal (de Bloom e Molly) com o rapaz. A trama é arrematada com um atordoante desfecho: o célebre monólogo da senhora Bloom. Então, a importância da obra e a revolução promovida pela ousadia do escritor justificam plenamente a comemoração anual do "Bloomsday", que ocorre no aniversário da data no romance: 16 de Junho de 1904. Ontem, portanto. Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Ulisses, ou a balada do Sr. Bloom. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 17 de Junho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Carta a Saramago


Antes de, propriamente, começar, quero explicar-lhe os motivos que me impeliram a esta empreita: sou um grande apreciador da Literatura que brota de suas mãos. A sua vasta galeria proporcionou-me diversas experiências de significado e compreensão com ressonâncias interiores edificantes. 
Bem jovem, já visitava assiduamente os seus escritos e muitas foram as vezes que cheguei a desconfiar de minha real existência, imaginando-me uma criatura sua, dadas as coincidências constantes entre os medos e angústias de seus personagens e os meus próprios. "Ora (pensará), um personagem meu? De certo perdeu o senso!" e eu lhe direi, no entanto, que muitas vezes, pálido de encanto, percebo-me inaugurar com sua escrita. Acho, inclusive, que cada leitor seu é também uma personagem desgarrada em busca de não sei o quê. 
Tudo isto, acredito, só é possível graças a sua capacidade artística. Sempre, uma metáfora sua fala mais sobre o mundo e suas duras discrepâncias de que uma sisuda e banal notícia que se transmuta em nada rapidamente. Mas seu exemplo extrapola: não basta a denúncia para um mundo que inventa insistentemente a morte. 
Isto posto, confesso que há muito tempo sou assaltado pela ideia fixa de desencadear este diálogo contigo (sabendo de seus compromissos), enviando-lhe uma carta que fosse, antes de tudo, um abraço fraterno (muitos brasileiros o admiram) e, principalmente o pagamento de uma dívida humana: que minhas palavras, brejeiramente anônimas, trevas nas luzes dos bytes, proporcionem um pouco da alegria que já vivenciei com as suas. Obrigado!
Agora, continuo pela tarde que velha um azul-província, respirando o plástico sacrificador de vontades nosso de cada dia, enquanto canteiros floridos teimam olhares brejeiros, as reclamações continuam as mesmas e as pessoas se desentendem sem imaginar a razão.Então, desafiando as leis terrenas das probabilidades, as sinas sinistras dos desencontros e as reentrâncias do fado, envio-lhe por fios estas palavras, José, tão resistentes como a sombra de um elefante e tão errantes como Caim; que te encontrarão, quem sabe, numa destas nubladas e chuvosas manhãs, quando o tédio se assemelha a um moscardo, pairando sobre as pessoas, sempre, cansadas. Oxalá as receba e o destino se cumpre.
***
Esta carta fora enviada ao escritor José Saramago, em 2010, meses antes de sua morte, em junho do mesmo ano.

MIRANDA, Rafael Puertas de. Carta a Saramago. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 10 de   Junho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

O Mestre da "comborçaria"

Anônimo. Machado de Assis, c. 1880 / Acervo Academia Brasileira de Letras.
No ano de 1999, depois que o escritor carioca Carlos Heitor Cony começou a divulgar o resultado de suas pesquisas sobre crônicas fofoqueiras do final do século XIX, aventou-se a possibilidade de que Mário Cochrane de Alencar não seria filho do romancista José de Alencar, pai de "Iracema" (1865). 

Mário, talentoso escritor e epilético, na verdade, seria fruto de uma relação extraconjugal entre a mulher de Alencar, Georgiana Cochrane, e o jovem escritor Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Na época, sugeriu-se uma nova chave para a interpretação do romance "Dom Casmurro" (1899), escrito por Machado na maturidade, enxergando-o como uma espécie de veículo de expiação, biografia ficcionalizada.
Se "corneou" ou não o amigo (e acredite, querido leitor, há registro de que Machado tenha traído até a própria esposa), o futuro nos dirá. Certo é, no entanto, que nenhum outro escritor de nossas letras esmiuçou com tanta competência e profundidade a "comborçaria", desnudando a dinâmica das relações burguesas, em fins do século XIX. Vale!

À guisa de breve roteiro, apresento abaixo alguns dos imperdíveis atos de traição machadianos:
- O triângulo amoroso entre Rita, Camilo e Vilela apresentado no conto "A Cartomante". Na história, os amantes (Rita e Camilo), depois de descobertos, são assassinados por Vilela.

- A admissão resignada da traição, no conto "A Missa do Galo". Conceição é casada com Meneses e este a trai semanalmente (diz que vai ao teatro - "eufemismo em ação"), mas não a engana.
- No conto "Último Capítulo", Matias, depois de ficar viúvo, descobre que a inexpressiva e bondosa mulher, D. Rufina, o traia com seu amigo Gonçalves. Matias decide, então, tirar a própria vida. 

- Maria Olímpia, a protagonista do conto "A Senhora do Galvão", prefere descartar as evidências, negando o óbvio envolvimento de seu marido, o senhor Galvão, com a viúva "Ipiranga", Madame Tavares. Mas, por inveja (a outra compra antes uma joia que Olímpia paquerava há muito tempo), decide enfrentá-la. É salvo o casamento.
- No romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Lobo Neves desconfia, mas não descobre a traição de Virgília. O ilustre comborço defunto, Brás Cubas, engravida a amante, porém esta perde o filho. O caso deixa marcas profundas.
- Em "Dom Casmurro", Capitu com seu olhos de "Caipora" engana Bento Santiago, traindo-o com o próprio amigo, Escobar.

MIRANDA, Rafael Puertas de. O Mestre da "comborçaria". Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 03 de Junho de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Da Genética do Texto


Em 1972, o belga Philipe Leon Marie Ghislain Willemart concluía sua graduação em Letras (Língua e Literatura Francesa) na Universidade de São Paulo. 
Hoje, pós-doutorado pela mesma instituição, é considerado um dos mais respeitáveis estudiosos da literatura Proustiana no Brasil e também o introdutor de uma nova linha de investigação literária denominada "Crítica Genética", que, afim de consolidar uma teoria da escritura, é direcionada à análise minuciosa dos processos de criação dos grandes escritores, mapeando suas peculiaridades, sua dinâmica.
Willemart, que coordena o Laboratório do Manuscrito Literário (LML), o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética (NAPCG) e o Centro de Estudos Proustianos, fora responsável também pelo projeto temático FAPESP "BRÉPOLS brasileiro" (2007-2011) que avaliou/investigou determinados cadernos manuscritos "caóticos" do espólio do escritor francês Marcel Proust (1871-1922); a pesquisa contou com a participação de estudiosos franceses, japoneses e brasileiros.
O resultado do referido trabalho conjunto, uma edição crítica de todo o material com transcrição integral, fac-símile de cada página e notas explicativas a ser publicado pela prestigiada editora belga BRÉPOLS, ainda não tem data de lançamento no Brasil.
Entre os destaques aflorados pelo projeto, encontra-se a brilhante tese defendida pela professora da UNESP (Assis) Carla Cavalcanti e Silva, que localizou o destino de quarenta páginas arrancadas pelo escritor do caderno 53, que constitui parte considerável da série "Em busca do tempo perdido", obra romanesca escrita entre 1908-22 e publicada entre 1913-27, em sete volumes.
Marcel Proust, para o terror daqueles que eram responsáveis pela transcrição de seus manuscritos, utilizava estes cadernos - miseau net - como rascunhos, praticando uma escrita não linear e, também, por vezes, arrancava páginas a fim de alocar trechos escritos em outros cadernos, em "alturas" diferentes" do texto final.
Esta investigação lança novas luzes à interpretação da obra (pode, inclusive, a relevante pesquisa, contestar o caráter autobiográfico da obra máxima de Proust, tradicionalmente classificada como um "roman à cléf", quando observa que a escolha da narrativa em primeira pessoa é tardia - o próprio escritor questionava a leitura tradicional) e amplia o prestígio brasileiro neste sedutor novo campo de pesquisa. 
Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Da Genética do Texto. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 13 de Maio de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Geografias


A cinco voos

Escuro ainda,
o pássaro desconhecido senta-se em seu costumeiro galho.

O pequeno cão da vizinhança ladra em seu sono
interrogativamente, somente uma vez.

Talvez em seu sono, também, o pássaro indague
uma ou duas vezes, trinando trêmulo.

Questões - se isso elas são -
respondidas diretamente, simplesmente,
durante o próprio dia.

Enorme manhã lenta, meticulosa;
Luz pálida riscando cada ramo nu,
Cada fino graveto, perfilado,
Fingindo outra árvore, de vítreas veias...

A ave ainda está lá. Agora parece bocejar.

O pequeno cachorro preto corre em seu terreiro.

A voz de seu dono surge, austera,
"Você devia ter vergonha!"
O que ele fizera?
Ele salta alegremente para cima e para baixo,
ele corre em círculos nas caídas folhas.

Obviamente, ele não tem noção do ridículo.

Ele e o pássaro sabem estar tudo resolvido,
todos os devidos cuidados,
não há necessidade de perguntar novamente.

― Ontem nasceu hoje tão brevemente!
(A de ontem acho quase impossível levantar.)

Versão metida à tradução do Poema "Five flights up", de Elizabeth Bishop - Maio, 2012.


O poema acima pertence ao livro "Geography III" (Editora Farrar, Straus and Giroux - 1976), última obra da escritora americana Elizabeth Bishop (1911-1979), uma das grandes vozes poéticas do século XX. 
O livro, marcadamente autobiográfico, é considerado por muitos críticos como o seu trabalho mais vigoroso. Nele, evidenciam-se as características marcantes de uma poesia que se debruça sobre singelos episódios do cotidiano, extraindo, dos mesmos, intenso lirismo.
Verdades emocionais com uma linguagem cheia de exatidão.
Bishop viveu no Brasil cerca de vinte anos. Enquanto aqui esteve, na década de 50, registrou os principais eventos de natureza política que chacoalharam nossa sociedade. Como gostava de pintura, algumas de suas obras catalogadas retratam cenas rurais brasileiras.
Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Geografias. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 06 de Maio de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Encontros


As ideias fundamentadas pelo filósofo espanhol Afonso López Quintás (1928) são destrinchadas e comentadas pelo seu atento interlocutor brasileiro, o Doutor Gabriel Perissé, na obra "A Leitura das Entrelinhas: Método Lúdico-Ambital" (ESDC, 2006). Na referida obra, é apresentado o método que propõe uma "leitura mais aprofundada de textos literários ou de outras naturezas".
Além de expor as teorias do pensador espanhol, Perissé apresenta, subvertendo o Cânone, a prática desta "Leitura Profunda" em ensaios bem elaborados acerca de três obras diferentes: "Laranja Mecânica", de Anthony Burges, "A Metamorfose", de Kafka e "Naquela Noite", de Sérgio Bittencourt.
Uma das partes mais interessantes do texto é a explanação a respeito de um conceito que, além de constante na obra de Afonso Lópes, segundo Perissé, é decisivo para o entendimento do pensamento do teórico: a ideia do encontro como traço definidor do ser humano. Este "ser de encontro" aproxima-se da sabedoria e humaniza-se somente quando vivencia formas "elevadas" de relação com aquilo que o circunda, incluindo-se aí as obras de arte literárias. Com o passar do tempo, a relação estabelecida com um texto prenhe de literariedade passa por uma espécie de depuração. Para tanto, devemos aperfeiçoar esse vínculo, temperando-o com cultivo, paciência, generosidade e a prática de uma busca positiva (acrescentaria, incansável). Neste momento, a compreensão de uma realidade até aquele momento inacessível à inteligência se manifesta.
E como acontece o "encontro"? O encontro é um evento criativo que demanda, de seus persistentes protagonistas, iniciativa e, sobretudo, predisposição para o diálogo. É claro, leitor, que o livro como objeto físico é esvaziado de vontade, mas aquelas obras ricas que se apresentam como desafio não são, segundo os estudiosos, meros objetos: tornaram-se "âmbitos". Estes livros chamam por nós. 
***
No próximo sábado, dia 29, na bela cidade litorânea de São Sebastião, Maria Angélica de Moura Miranda, minha mãe, realiza a XVIIª Edição de seu projeto/exposição+evento: "Encontro Regional de Autores", onde reúne os escritores do Litoral Norte recém-publicados. Evento que embalou a minha infância e juventude e, ainda hoje, deve propiciar deliciosos encontros entre os livros regionais (da caiçaragem) e os olhos famintos de leitores de diversas naturezas. 
Enfim, "Encontros" que valem!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Encontros. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 23 de Outubro de 2011. Caderno Variedades, p. 03.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Celebração

Querido leitor, neste dia cansado de Maio, celebro o aniversário de um ano desta humilde coluna dominical, espaço que me fora gentilmente cedido pela equipe deste respeitável periódico mogiano, o Jornal Mogi News.
Agradeço profundamente ao editor Márcio Siqueira e à competente professora doutora Ivone Marques Dias, entusiastas sinceros que foram dos escritos deste ordinário admirador da Literatura.
Agradeço aos companheiros de página, nobres colegas descobertos entre cascatas de letras (diria “cachoeira”, mas esta palavra não me diz nada).
Agradeço à prestativa e dinâmica equipe deste caderno, Variedades, responsável pela recepção e editoração de meus textos (acreditem, não é uma tarefa fácil me encontrar!).
E também saúdo você, querido leitor “imaginário”, que, às vezes, rompendo o silêncio da leitura atenta e reflexiva, renegando a condição de “hipótese” e “sonho”, envia-me um e-mail, um comentário, e, assim, num simples ato, justifica toda a razão de ser deste singelo emaranhado de parágrafos; a vida.
Vale (último enunciado da segunda parte da obra D. Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra, de 1615, e utilizado como fecho de meus textos – aí está a explicação prometida, Inês!).
***
***
A Máquina

Acontece que,
alheia ao insulto suspeito,
certo dia, a verdade
rasgou o oculto
em busca de gente.

Mas, entre o azul enxofre do céu
e o espasmo plástico da terra,
faltou o esperado curioso
que se metesse com ela.

Nua, então, caminhou solta,
espraiando as poeiras da estrada,
eriçando pelos vadios,
arranhando espelhos quebrados,
raspando os sentidos de leve,
enquanto
singrava os inusitados espaços da aurora.

E, como não lhe davam boca,
mergulhou matreira
nos olhos de um urutau perdido,
que amanhecera no poste da praça do centro.

Ave rebento,
divino ao avesso,
emblema sem fim nem começo,
ilha dos olhares de nojo de cega multidão.

Era a máquina,
golem indecifrável;
E, assim, lentamente,
nasceu o passado.

Poema vencedor do Concurso Literário promovido pela revista portuguesa FENDAMEL.
MIRANDA, Rafael Puertas de. Celebração. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 27 de Maio de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Do Futebol


Em 1919, a imprensa carioca fervilhava com a publicação de uma série de artigos demolidores escritos pelo saudoso literato e anarquista Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Os textos eram parte de uma campanha promovida por renomados intelectuais para conter a disseminação de um esporte, espécie de “germe nocivo”, que ia se transformando, aos poucos, numa mania nacional: o “Football”, ou, como era chamado, “o nobre esporte bretão”.
Liderados por Barreto, a “Liga contra o Football”, como se autoproclamavam, não conseguiu construir uma sede por “questões financeiras”, mas acabou contraindo inimigos à altura: Coelho Neto, sócio/torcedor do Fluminense Futebol Clube, fora talvez o adversário mais ferrenho no campo dos argumentos (contrapropaganda), sagrando-se por intermédio de discursos e entrevistas onde apelava até para as tradições Greco-romanas, com o intuito de anular as investidas da horda dos contrários. O articulista Ricardo Pinto, também oposto às ideias da “Liga”, publicou um artigo ácido, desqualificando o interesse de Lima, afirmando que este não entendia nada de futebol e denominando-o, sarcasticamente, como o Brás Cubas mentor deste movimento tresloucado. Barreto não gostou nada disto.
A “Liga” foi para escanteio, mas, curiosamente, a aversão ao futebol rolou pelos séculos. Há, inclusive, o discurso “demonizador” que desnuda o poder hipnótico deste perigoso “ópio das multidões”.
Em 2008, driblando questões políticas, sociais, econômicas e comportamentais que sempre são priorizadas nas investigações deste esporte, o professor José Miguel Wisnik lançou seu ensaio “Veneno Remédio”. Na obra, bibliografia obrigatória para os amantes do Futebol, Wisnik enfatiza as características encantatórias do “jogo em si”, esporte introduzido e praticamente reinventado em nosso país; esmiúça o caráter aparentemente paradoxal desta modalidade e a apresenta como uma “cifrada atividade criativa” (de construção do imaginário), que não pode simplesmente ser sonegada, pois diz muito a respeito de nossa identidade e formação. Vale!
***
No último domingo, entre os torcedores de meu time, o Santos Futebol Clube, nas arquibancadas do Morumbi, fui testemunha ocular da atuação de uma equipe que “gosta” de Futebol. Neymar, mogiano que já começou driblando terríveis índices de mortalidade infantil, merece uma estátua na frente da prefeitura. Com bola e tudo!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Do Futebol. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 20 de Maio de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Momentos

"Felicidade? Palavra doida inventada por nordestinas que andam aos montes por aí (...)"
A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector

O terrível evento se deu, querido leitor, enquanto aguardava atendimento médico para uma destas consultas rotineiras. Enfastiado com as pinturas que ornavam as paredes do pomposo consultório – começo a acreditar que haja uma disciplina específica de “mau gosto artístico” na grade dos cursos de medicina, dada a quantidade de obras ridículas que enfei(t)am tais ambientes – , decidi folhear distraidamente uma revista de futilidades, daquelas que abarrotam as mesas de salas de espera e são bem propícias a tais infortúnios. Diga-se de passagem, também são conscientemente programadas para durar mais: o famoso recheio “alheio”.
Para minha surpresa, no entanto, entre fotos de batons e modelos insossas, encontrei uma matéria celebrando a grande escritora ucraniana, naturalizada brasileira, Clarice Lispector (nascida Haia Pinkhasovna Lispector; 1920-1977). Os depoimentos, dados bibliográficos e a análise das características marcantes do estilo da prosadora foram muito bem “pescados”. Uma bela fotografia emoldurava uma das páginas da seção. Tudo organizado.
Mas, para minha total angústia e desespero, ao lado da referida foto, jazia a reprodução integral de um medonho (para não dizer “escroto”) poemeto de auto-ajuda, atribuído a autora de “Perto do Coração Selvagem”.
O arremedo, intitulado “Há momentos”, circula pela internet deliberadamente, constando em sites, aparentemente, confiáveis, daqueles que seduzem apressados organizadores de conteúdo que não se dão ao luxo de desmascarar a “autoria desconhecida” destes escritos mal acabados.        
Com Clarice, é fácil.
Primeiro, nunca publicou poemas, somente Romances, Contos e Crônicas. É conhecida pela densidade de suas personagens e tramas psicológicas truncadas.
Segundo, observando sua natureza solitária, introvertida e melancólica (para não dizer depressiva), nunca diria coisas do gênero: “sonhe com o que você quiser”, “a importância das pessoas que passam por sua vida”, “sorria, seja feliz”, “mude”, “tenha felicidade bastante para fazê-la doce”. Se fosse viva, a autora do belo e cruel romance “A hora da estrela”, teria ânsias. Este critério também pode ser empregado com Fernando Pessoa.
Enfim, a Internet é um espaço livre e sempre será. Mesmo assim, é importante “filtrá-la”. Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Momentos. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 29 de Abril de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Vampiros me mordam!

Na antologia de Ensaios “O lugar do Outro” (Toopbooks/UMC - 1999), do saudoso e competente crítico literário taquaritinguense José Paulo Paes (1926-1998), encontramos o delicioso texto “Bruxaria de primeiro mundo”, onde o literato desqualifica a novela global “Olho no Olho”, escrita por Antônio Calmon.
O dramalhão televisivo aproveitava a onda instaurada pelo mequetrefe imortal “Paul Rabbit” (agora, habitante da Suíça) e trazia às telas uma verdadeira miscelânea de clichês e o maniqueísmo típico de qualquer folhetim desta natureza, imprescindíveis para fisgar o grande público. José Paulo esmiúça a trama fraca, ironizando os destrambelhados elementos constituintes deste oportunista pacotão cultural.
Quando o ensaísta menciona a “neomágica cunicular”, cita o historiador Mário Maestri que, em um “interessante artigo”, investiga as raízes sociológicas daquela corrente a fim de elucidar a estratégia comercial de sucesso empregada pelo autor d’O Alquimista.
Segundo Maestri, o Coelho dá cabo de uma “feliz modernização de temas da ideologia mágico tradicional, na sua vertente europeia” (faria mais sentido o Diário do Boitatá, ou não?), inaugurando, entre nós, a “feitiçaria yuppie” com seus personagens bruxos (ou magos...) descolados, modernos, endinheirados, extrovertidos, sempre envolvidos em tramas ambientadas em países do primeiro mundo “para gáudio do imaginário arrivista e fantasioso do brasileiros de classe média”.
Inclusive, querido leitor, poderíamos distender a terminologia sugerida, atentando para as novas dimensões da narrativa de gôndola de supermercado: “feitiçaria yuppie” seria, hoje, o “sobrenatural clean”, com seus lobisomens índios marombados e vampiros dóceis e perfumados.
Como tenho saudades do arquétipo vampiresco asqueroso, antissocial, anti-higiênico, politicamente incorreto e sem escrúpulos, modelo Mojica/Nosferatu. A senhora religiosa Meyer conseguiu “eclipsá-lo”, ou melhor dizendo, higienizá-lo.
A grande ironia é que o discurso da “castidade” embutido de propósito na trama da carola escritora estadunidense (“devo controlar os meus instintos” – fala do vampiro protagonista à beira do pescoço da donzela-peter-parker-versão-girl) não foi assimilado pelos assíduos leitores tupiniquins.
Mas, agora, como diria um amigo, é “gato morto” e, em breve, pousará na prateleira do esquecimento, ao lado do Coelho. Vamos aos outros!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Vampiros me mordam!. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 08 de Abril de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Daquilo que não se diz

Há aquela espécie de obra literária, querido leitor, da qual não nos desvencilhamos. Então, perseguir edições variadas, portadoras de diferentes formatos, fortunas críticas, notas, apêndices, curiosidades, acaba se transformando num divertido hábito, beirando, em alguns casos, a própria obsessão. Coisa de quem, por efeito de algum caso incidente, aprendeu a “comer” livros.
Entre os vãos de minhas prateleiras, repousam algumas evidências desta prática. Os Lusíadas (1572), a sublime epopeia do escritor português Luís Vaz de Camões (1524?-1580), por exemplo, é um título multiplicado entre meus guardados.
Encontram-se perfiladas: a edição portuguesa em papel bíblia das Obras de Luís de Camões, da Lello & Irmão – editores (com as mais notáveis variantes); a completa e didática edição, organizada pelo professor português Emanuel Paulo Ramos e impressa pela Porto Editora (acompanhada de anotações, fotografias, imagens e notas complementares); a elucidativa “A Chave dos Lusíadas”, do mestre José Agostinho, publicada pela livraria Figueirinhas (acompanhada de notas e paráfrase explicativa); a monumental edição lançada pela editora LEP e organizada pelo instituto de estudos portugueses da Universidade de São Paulo (com ilustrações de Begas, Liezen-Mayer, Kostka e Ludwig Burger).
Mas, a edição que destaco neste humilde rabisco é uma singela reprodução fac-similar, publicada, sem mais informações, pela Takano Editora Gráfica como parte integrante de “A Revista”.
O molde do livro fora a primeira edição do bibliófilo José Midlin. A bem acabada publicação não representa nenhuma novidade para os conhecedores da impressão do século XVI. A curiosidade maior está perdida entre seus Cantos.
Os responsáveis pela referida versão publicaram também as páginas do Jornal “O Estado de São Paulo” que sofreram intervenções da ditadura militar brasileira – na época, o periódico decidiu que toda matéria “censurada” seria substituída por um trecho da obra épica camoniana. Em seguida, apresentam a versão integral do texto “mutilado” (como o texto “A epidemia do silêncio”, de 26-07-1974, onde o articulista Clovis Rossi denuncia o ocultamento de um surto de meningite). Vale!
***
Ainda hoje, em Suzano, ocorre a louvável “Feira Internacional do Livro”. Espero que esta iniciativa vitoriosa, inédita e inesquecível se transforme em tradição. Congratulações aos responsáveis.

MIRANDA, Rafael Puertas de. Daquilo que não se diz. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 22 de Abril de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Bobók e o Boboca

Em janeiro de 1873, o escritor russo Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881) assumia, para o desespero e nojo do meio intelectual e literário do qual fazia parte, o cargo de redator-chefe do reacionário e tendencioso semanário “Grajdanin”. Sua primeira publicação na referida “casa” fora o delicioso conto “Bobók”, devidamente acomodado na recém inaugurada seção “Diário de um escritor”. Neste tempo, o autor do imperdível romance Os Demônios (1871) sofria ataques severos da crítica rala que o enxergava como um escritor de linguagem truncada, beirando o descaso.
O texto “Bobók” (a tradução do russo indica “fava”), narrado em primeira pessoa, pode ser facilmente alocado na galeria de obras denominadas “narrativas fantásticas” e é também uma espécie de defesa profundamente irônica e inteligente de seus princípios literários frente às superficiais investidas dos soberbos e enfadonhos críticos de seu tempo.
Na trama, somos apresentados ao escritor/personagem Ivan Ivánitchi que – ao contrário de alguns artistas mogianos(?) que andam soltos por aqui e que gostam muito de se autopromoverem (ab)surdamente, utilizando, inclusive, cartas de colegas das artes para depois raivosamente os desqualificarem, em arroubos egoístas e pouco compreensíveis irradiadores também de uma ditadura do tema a ser desenvolvido por intelectuais, seus outros desafetos – admite-se honestamente como um perfeito imbecil (e, claro, é muito bom).
Seus escritos são renegados por editores que os acham “pesados” demais para o gosto do grande público e, para sobreviver, escreve mediocridades, destas que estão por aí a abarrotar as prateleiras tediosas das “lojas de livros”. Sua obra encomendada mais famosa é “A arte de agradar às mulheres” (a antropologia da futilidade).
Certo dia, enquanto acompanhava o enterro de um conhecido, acaba se deitando sobre as lajes frias do cemitério e, subitamente, começa a escutar o diálogo dos mortos enterrados ao seu redor. Os defuntos, não desligados de seus hábitos e de suas “classes”, desenvolvem um maravilhoso debate sobre as convenções mundanas, contrastando-as com a condição de “enterrado”. Depois de muita polêmica e pudores inúteis, decidem se desvencilhar de suas roupas, como forma de protesto.
Vale! Principalmente a primorosa edição da Editora 34 (2005), seguida da análise brilhante do competente professor e crítico brasileiro Paulo Bezerra.

MIRANDA, Rafael Puertas de. Bobók e o Boboca. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 19 de Junho de 2011. Caderno Variedades, p. 03.

A Máquina

No dia 02 de Janeiro de 2000, o Jornal Folha de São Paulo lançava, sem a intenção de perpetuar uma escala de juízos de valores (?), uma edição especial do seu caderno “mais!” intitulada: Os cem melhores poemas do século.
Cada um dos dez críticos selecionados para compor o júri era responsável pela confecção de uma lista com os dez poemas mais relevantes do século XX. Em seguida, os dados eram cruzados (um verdadeiro mosaico caótico) e os textos reincidentes, com as melhores colocações, foram aglutinados numa única lista, que indicava as dez maiores obras do referido período.
Nesta pitoresca oportunidade, revestida de um aparente caráter fomentador do estímulo à leitura e ao debate, os especialistas (ou, melhor dizendo, quatro deles) foram unânimes: o poema “A máquina do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade, era a composição poética mais relevante de nossa literatura. O poeta itabirano, inclusive, figurava em todas as listas, sendo reverenciado, no entanto, por diferentes composições de sua autoria. O resultado foi, curiosamente, justo.
O poema, que integra o livro “Claro Enigma” (1951), dialoga com uma das mais emblemáticas e reverberantes metáforas da era moderna, em circulação desde a antiguidade e fundamentada na premissa de que o Mundo seja dividido em duas partes em constante interação – cosmos: a elementar e a celestial.
Camões, no Canto décimo d’Os Lusíadas, reafirma sua profunda erudição, quando nos apresenta a ninfa Tétis guiando Vasco da Gama até a própria “Máquina do Mundo” para que este pudesse vislumbrar a sina de sua pátria; recompensa “triste” de seus feitos heroicos.
No poema de Drummond, somos apresentados a um eu-lírico que, ao entardecer, caminha vagarosamente pelas pedregosas estradas de uma áspera Minas, sem “rocambole”, quando, subitamente, é assaltado pela presença da máquina. Justo ele, que se esquivava de qualquer revelação, tinha a permissão de contemplá-la; e sedutora. Carpiu-se, todavia, do direito de possuí-la, ignorou-a. Sabia o bastante a respeito de si mesmo. O mundo que basta.
***
Em tempo: Drummond sai agora de outra “máquina”! Desde o início do ano, a Editora Companhia das Letras (SP) tem reeditado suas obras. Claro Enigma, o segundo título lançado, integra a nova série que faz jus ao capricho da casa: fortuna crítica da melhor qualidade, diagramação exuberante e profissional estabelecimento do texto. Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. A Máquina. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 01 de Abril de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Diletante de Ambientes

Ontem, pela tarde, uma prateleira de minha cansada estante despencou. Não houve barulho, não houve caco, revelações assustadoras, tampouco vítimas. Simplesmente, apareceu estatelada sobre o “andar” de baixo do próprio móvel sisudo. Um destes típicos incidentes cotidianos silenciosos que custam a ser notados e trazem um pouco de caos à organização de tudo, querido leitor. Em verdade, tudo estava posto.
Ajoelhei-me, então, para socorrer algumas dezenas de queridos livros e, neste instante, tão rápido como um raio, saltou-me às mãos um pequeno Romance (gênero narrativo) que decerto já sobrevivera a alguns descartes e doações (é muito bom distribuir livros) e ainda não fora lido, perdido entre as frinchas obscuras de minha estante. Agora, redescoberto.
A pequena edição continha na capa a reprodução de uma belíssima fotografia em preto e branco de uma estação de metrô parisiense e era guarnecida por uma pequena tira de papel, onde jaziam as palavras entusiasmadas de um dos grandes prosadores norte-americanos da atualidade, o grande escritor Paul Auster (ainda escreverei algo a respeito de uma de suas mais empolgantes obras: “A noite do oráculo”, de 2003). A “casca” do achado era convidativa, restava provar o “miolo”.
Tratava-se da obra “Voz sem saída” (Ed. Nova Fronteira, 2006 – ainda disponível nas livrarias virtuais), da jovem escritora francesa Céline Curiol. Lançada em 2005, apresenta um narrador em terceira pessoa que revela o monólogo interior (indireto) de uma jovem anônima e apagada, referida por ele, em toda trama, simplesmente como “Ela”.
A moça é um ser indiferente que se “arrasta” pelos recantos mais sombrios da triste cidade luz (uma verdadeira “diletante de ambientes”, para fazer jus ao grande personagem Simão, do saudoso Ribeiro Couto) em busca de pequenas aventuras capazes de “cauterizar” sua claudicante monotonia e apagar, por alguns momentos, as lembranças do triângulo amoroso vivenciado por “Ela”, seu amigo/amado e Ange, uma jovem espetacularmente bela.
Curiol recria uma realidade onde a dinâmica dos relacionamentos humanos se apresenta de maneira confusa e encantadora, fugindo à complicação amorosa rasteira das telenovelas. As personagens inseguras se debatem em busca de soluções para si mesmas, até as últimas consequências de seu atos, de suas covardias. De resto, a neurose típica da “modernidade líquida”. Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Diletante de Ambientes. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 25 de Março de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Viva?

A primeira cena se descortina, desafiando a imaginação da plateia. Nela, desfilam duas figuras curiosas, para não dizer “quixotescas”: um gorducho, com ares soberbos e roupa estranha, seguido de um lacaio magricela carregando pesada bagagem sobre o lombo de um asno cansado. A fórmula simples é rapidamente desvendada pelo espectador atento: trata-se do patrão e do escravo, mas ainda certa estranheza paira no ar. São, respectivamente, Dioniso - o próprio deus do teatro, fantasiado de Herácles - e seu servo Xântias, a reboque.
Começa o diálogo e, aos poucos, o público vai se familiarizando com a empreita da exótica dupla: Dioniso, após a morte de Eurípedes (último grande poeta de Atenas), repudiando o talento medíocre dos artistas ainda vivos, seus egos inflados e suas composições decadentes, decide “descer” ao Hades a fim de ressuscitar o autor de Medeia. Quando lá chega, acaba desprezando este e resgata outro da morada dos mortos, que julgava mais competente e menos polêmico: Ésquilo.
Estes são os argumentos da deliciosa e premiada comédia “As Rãs” (gr. Βάτραχοι), do dramaturgo ateniense Aristófanes (V a.C.). Espécie de paródia e crítica do próprio ambiente literário, foi representada pela primeira vez em 405 antes de Cristo. Naquele tempo, querido leitor, notamos já a prática ainda hoje comumente difundida de sentenciar a “morte da poesia”.
Contrariando esta sentença, mesmo que, para isso, sujeitemo-nos a exalar “eau de decreto”; na semana passada, comemoramos o “Dia Nacional da Poesia” (14 de Março), providencialmente alocado na data de nascimento de Antônio Frederico de Castro Alves, aquele que - sob pena de desentocar quilos de pó e teias de aranha -, saído de Curralinho (hoje, Município de Castro Alves - BA, ainda bem!) é, sem sombra de dúvidas, um dos maiores poetas brasileiros do século XIX.
As comemorações foram limitadas, tímidas, invisíveis. Não houve bolo, passeata, rua pintada, desfile, trânsito parado, traje colorido, banda, banner, bandanas, duplas sertanejas, tiros de canhão, barraca, comoção ou sarau.
A poesia não morreu, mas se arrasta. Principalmente, porque leitores sensíveis são os responsáveis pela sua total nutrição. Onde estarão em tempos tão embrutecidos? Onde andam lendo ainda Poesia?
O saudoso poeta Paulo Leminski a dizia um “inutensílio indispensável”.
Há quatro dias, acendi uma vela: porque também ela, uma religião.
Vale!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Viva?. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 18 de Março de 2012. Caderno Variedades, p. 07.

Casa e Universo

Dedico este artigo ao competente agente cultural Frederico Barbosa
No delicioso ensaio “A Poética do Espaço”, o saudoso poeta francês Gaston Bachelard, ao analisar o fenômeno psicológico estrutural do apego à casa, afirmava: “(...) a casa é nosso canto no mundo. Ela é, como se diz amiúde, o nosso primeiro universo. É um verdadeiro cosmos”.
Tal analogia, querido leitor, serviria perfeitamente para ilustrar a real dimensão de um dos espaços públicos mais entusiasmantes de que se tem notícia: o Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Casa das Rosas), em São Paulo.
Frequentador assíduo desde sua inauguração, perdi a conta das inúmeras situações já vivenciadas por mim naquele recanto: lá, frequentei oficinas de teoria do poema, assisti a exposições, espetáculos, conheci escritores célebres e diletantes, participei de saraus madrugada adentro, emprestei livros da biblioteca (admite-se o empréstimo para “forasteiros”), fiz farra ao encontrar colegas do Alto Tietê, integrei a “tropa” de artistas mogianos regida pelo grupo Entremeio Literário que, em 2008, lançou lá o livro “Poesia e Arte Mogiana” (ainda estão na lembrança nosso sarau, a música de Mateus Sartori e a apresentação de Fernanda Moretti que, à noite, entre as roseiras do jardim da Casa, deslumbrou o público com sua performance – que orgulho de todos!), divulguei meu livro digital de poemas, encontrei-me com minha esposa, Raquel, enquanto ainda namorávamos, gastei horas nas confortáveis poltronas do andar superior a folhear livros...
Portanto, não posso pensar neste ambiente de forma imparcial. Para mim é um exemplo (e não estou aqui reivindicando “sala” igual em nossa querida cidade, pois acredito que a formação dos artistas e do público anteceda a ânsia do espaço – do contrário, será somente mais um “aparelho” repleto de moscas e egos). A Casa das Rosas é parte da minha existência dedicada à poesia. Vale!
Tudo isso, no entanto, não vivenciou o desavisado senhor Luis Dolhnikoff, que, num artigo tendencioso, publicado num site qualquer da internet, desqualificou e minimizou as ações da Casa das Rosas, utilizando, para isso, um nojento arcabouço teórico oriundo da lógica meritocrática e fria dos gestores clássicos, desprezando, assim, as múltiplas possibilidades da atividade artística humana e, sobretudo, dando mostras claras de sua curta visão. Ainda bem não ser levado a sério!

MIRANDA, Rafael Puertas de. Casa e Universo. Jornal Mogi News, Mogi das Cruzes, 11 de Março de 2012. Caderno Variedades, p. 07.